Foi Sartre que disse ser o futebol uma metáfora da vida. Troco em miúdos: esse esporte representa hoje muito mais do que o seu próprio objeto – o gol, a vitória, a copa. O futebol dá ao povo significado e direção onde existem incerteza, esperança em meio ao desespero e respostas onde existe ansiedade. Países onde o football association criado pelos ingleses chegou tarde e ainda não foram criadas condições para o surgimento de grandes times lamentam essa situação. No Afeganistão, na Malásia, a torcida projeta nos grandes campeões estrangeiros a sua admiração, fazendo-os mediadores da realização de cada um. Os Estados Unidos investiram milhões na contratação de craques mundiais para clonagem dos seus próprios atletas. Embora estejam representados na Copa ainda não conseguiram a adesão da grande torcida. Só os imigrantes vão aos estádios. Curioso é que o soccer, como eles chamam o nosso pé-bola, atraiu mais às mulheres a sua prática. No feminino eles se tornaram campeões mundiais.
O grande filósofo do existencialismo só esqueceu de dizer que o futebol, para tornar-se por inteiro uma metáfora da vida, precisa converter-se em literatura. Uma metáfora sem palavras é como uma bola murcha, igual aquela que Heleno de Freitas levava para cama para inspirar os seus sonhos e assim poder reviver as glórias do passado. Morreu louco em um hospício em Barbacena, depois de ser considerado “deus do futebolâ€, não só no Brasil, mas também na Colômbia, onde jogou. Exigia camisetas sob medida e passava gumex no cabelo para não desmanchar o penteado. A torcida adversária do Botafogo chamava-o de Gilda, a mulher que abalou os corações dos homens aos ser vivida no cinema por Rita Hayworth.
É difícil entender porque esse esporte e suas histórias de amor, paixão, ódio e comiseração ainda não foram exploradas na literatura. Nelson Rodrigues escreveu algumas crônicas, metafóricas sim, mas delas só ficou a frase “a Pátria de chuteirasâ€. Nossos maiores ídolos, Garrincha e Pelé, viraram filmes e alguns livros foram escritos como o de Luiz Carlos Cordeiro contando a infância do Dico em Bauru. Mais documentários do que propriamente ensaios sobre futebol.
Os jornalistas especializados, aqueles que vivem os bastidores e conhecem os atletas na intimidade, nada escrevem além do que vêem nos jogos e nas previsões quase sempre sombrias sobre o selecionado, para provar que são os donos-da-bola. Exercício da futurologia, aliás, não é privilégio nosso. O mundo inteiro, desde os tempos mais remotos, sempre foi fascinado pelo futuro. “Não há nenhuma nação – escreveu Cícero no ano 45 a.C. – por mais culta e instruída ou por mais bárbara e selvagem que não acredite ser possível que eventos futuros possam ser compreendidos e previstos por certas pessoasâ€. Quando o nosso bom João Bidu diz no JC que o Brasil tem chances na Copa porque será ajudado por Marte, Mercúrio e o Sol, na verdade utiliza-se de metáforas que nos faltam na literatura. Mas adverte que Saturno pode dar uma de Senegal, adentrar a cancha astral de chuteiras e atrapalhar tudo. É sempre bom ser vago e ambíguo nas previsões para evitar problemas. Exemplo recente foram as medonhas previsões sobre as conseqüências catastróficas do bug do milênio. Nostradamus foi mestre da ambigüidade com seus versos enigmáticos ou com datas potenciais fora do período de duração da sua própria vida.
Em 1960 a General Eletric gastou US$ 7 milhões para reunir os 30 maiores cientistas norte-americanos, de várias disciplinas, para fazerem previsões sobre o ano 2000. Asseguraram os futurólogos que hoje nós teríamos tanto tempo livre que seríamos pagos para não trabalhar. Os principais problemas psicológicos do ano 2000 teriam origem não no estresse, mas no excesso de tédio. As primeiras crianças já teriam nascido na Lua e os astronautas teriam aterrissado em Marte. Fico por aqui. Boa sorte, Brasil. (Zarcillo Barbosa é jornalista e colaborador do JC)