O poder e a influência do coronel Manoel Bento da Cruz, ex-prefeito de Bauru (1913/1914), na colonização da região paulista cortada pelas linhas da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB) compõem um dos capítulos do livro “À beira da linha - formações urbanas da Noroeste paulistaâ€, assinado pelo professor do curso de arquitetura da Unesp, Nilson Ghirardello.
A obra literária, resultado da tese de doutorado de Ghirardello, defendida na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, traz o selo da Editora Unesp. No próximo sábado, às 10h, o livro será lançado na Livraria Jalovi. Identificado por hisotriadores como um “plantador de cidadesâ€, o coronel Bento da Cruz foi sócio-fundador da The San Paulo Land, Lumber & Colonization Company.
Trata-se de uma empresa criada em 1912 para negociar as terras circunvizinhas às estações da Noroeste do Brasil ao longo do trecho paulista da ferrovia. “Manoel Bento da Cruz não tinha só influência em Bauru, mas em Penápolis, em Birigui, em Promissão, entre outras cidades.â€
A companhia chegou a ser proprietária de 60 mil alqueires de terras devolutas. “Nesse momento, formar centros urbanos era fundamental porque se tratava de apoio à ferrovia e à ocupação rural.â€
Ghirardello conta que o coronel foi o prefeito da cidade mais importante da região (Bauru) e tinha forte influência ao longo da linha da NOB. “Ele tinha aliados ao longo da região, que eram sócios da empresa. O grupo consegue, através dos governos municipais, formar as cidades. Elas são formadas politicamente através de Bauru.â€
Facilidades
A empresa comercializava pequenos lotes rurais, com dimensões a partir de dez alqueires, pagos parceladamente, 30% à vista e o restante em três anos com juros de 10%. Seu público alvo seriam os imigrantes, especialmente aqueles chegados ao Brasil há alguns anos e que tivessem amealhado algum dinheiro.
O professor relata no seu livro a relação de interesses entre a companhia do coronel e a direção da NOB. A estrada de ferro via com bons olhos o desenvolvimento da região para fomentar o transporte de cargas, especialmente o café, a ser plantado pelos futuros ocupantes.
“A tática de Bento da Cruz funcionará perfeitamente. No início dos anos 1920, já tinha parcelado 38.434 alqueires, vendidos a mais de dois mil compradores brasileiros, portugueses, italianos, espanhóis e japonesesâ€, relata a publicação.
“Plantador de cidadesâ€
Ghirardello diz que Bento da Cruz não era o único coronel da Zona Noroeste, mas com certeza foi o mais importante. Seu biógrafo chamou-o de “plantador de cidades†e o “homem que fez a Noroesteâ€.
“Essa última denominação nos parece particularmente interessante por sugerir a inexistência da política da zona antes de Bento da Cruz. Em parte é verdade, porque a área estava sendo ocupada na época em que Bento da Cruz para ela se dirigiu.â€
Sabe-se que o coronel tem forte vínculo com a terra rural, mas não era o caso de Bento da Cruz. Rico, ligado às atividades urbanas e com altas pretensões políticas e econômicas, Cruz procurava uma área a ser “aberta†e colonizada.
Ele chega a região de Penápolis em 1905 e começa a se apropriar de terras. Estabelece contatos políticos junto ao Governo do Estado como forma de amparar suas pretensões.
A atuação política de Bento da Cruz estará calcada na ação coletiva, mas visando prioritariamente ao proveito próprio. “Utilizando do prestígio outorgado pelas esferas superiores de poder, interfere decididamente na vida localâ€, relata o livro.
Em 1911, ele é eleito vereador e dois anos depois prefeito. Governa Bauru até 1914 e, em 1915, é eleito presidente da Câmara Municipal. A influência de Bento da Cruz elege todos os vereadores e prefeito de Penápolis.
Formação das cidades
O livro assinado por Nilson Ghirardello também trata da formação das cidades da Zona Noroeste, criadas a partir das estações ferroviárias da NOB. A pesquisa marca presença durante a construção da estrada de ferro, no período de 1905 a 1914.
O trabalho mostra a formação de dez cidades, todas no Estado paulista: Avaí, Presidente Alves, Cafelândia, Lins, Promissão, Avanhadava, Penápolis, Glicério, Birigui e Araçatuba.
Segundo ele, essas cidades são criadas a partir da instalação das estações ferroviárias. “Abordo questões técnicas. Quais os parâmetros técnicos de sua execução. Pesquisei como essas estações foram levantadas no mapa a partir do início feito pelo engenheiro Silvio Saint Martin.â€
Ghirardello relata no trabalho as semelhanças entre as cidades. “Foram criadas a partir de pontos baixos, definidos pela ferrovia, que sempre bordeava córregos e rios. Essas cidades nasciam na frente das estações.â€
O professor faz a comparação desse modelo com as cidades fundadas no século XIX, que surgem em lugares mais altos e ao redor de capelas. “Bauru é uma dessas clássicas cidades do final do século XIX. A ferrovia chega depois.â€
Ele relata que na Constituição republicana, no final do século XIX, há separação entre igreja e Estado. “Bauru ainda se forma dentro dos moldes antigos. A terra é doada por um fazendeiro e passada para a igreja. Essas cidades que estudei vão ter um contexto muito mais capitalistaâ€.