Mesmo após as perdas variando de 1% a 4,67% em média registradas na última sexta-feira nos rendimentos dos fundos de renda fixa e DI, economistas consultados pela reportagem estão orientando os investidores a aguardar os acontecimentos desta semana antes de decidir migrar para outras aplicações financeiras. Tudo ocorreu devido à antecipação da data-limite para a adaptação das carteiras às novas regras de cotação dos títulos da carteira desses fundos, que estava prevista para setembro.
A exigência de alinhar o valor original dos títulos ao de mercado foi uma iniciativa conjunta do Banco Central e da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Segundo analistas econômicos, a tendência é de novas quedas nesses rendimentos e não de recuperação. Contudo, economistas dizem que não é hora de precipitação.
“As perdas já ocorreram e não há nenhuma garantia de que não se repetirão, pois esses fundos serão permanentemente ajustados pelo valor de mercado. Na medida em que há uma percepção de aumento de risco, os títulos públicos podem ter seu valor rebaixado. O melhor a se fazer agora é aguardar a acomodação do mercado, pois a pior perda já ocorreu. Não é hora para precipitaçãoâ€, orienta o economista e delegado do Conselho Regional de Economia (Corecon) Reinaldo César Cafeo.
Títulos públicos
Os fundos de investimentos mais negociados são os DI, que pagam uma variação pelos juros nos depósitos interbancários, e o de renda fixa pré-fixada. Os fundos DI são pós-fixados, ou seja, o investidor combina uma determianada taxa de juros mas saberá a rentabilidade total somente após o resgate. Nos pré-fixados, a rentabilidade é combinada antes.
De acordo com Cafeo, esses fundos são obrigados a aplicar pelo menos 80% de sua carteira em títulos públicos, tanto do Tesouro Nacional quanto do Banco Central. São considerados seguros por não trabalharem de forma agressiva (alto risco na carteira). Mesmo os títulos públicos eram considerados de baixo risco por se entender que dificilmente o Governo Federal daria calote.
“Acontece que o cenário político, com grande possibilidade de mudanças no rumo da economia, vem influenciando o risco desses papéis. Além disso, o crescimento da dívida interna pública vem crescendo e 80% dessa dívida está lastreada em títulos que rendem juros ou variação cambialâ€, explica Cafeo.
Os bancos tinham até 30 de setembro deste ano para se adequar às novas normas de contabilizar os ativos dos fundos pelo valor de mercado. Porém, o Banco Central antecipou esse prazo para o final de maio e os investidores foram pegos de surpresa com as perdas registradas na sexta-feira passada, que variaram de 1% a 4,67% em média.
Surpresa
O economista Said Yusuf Abu Lawi diz que também ficou surpreso com a antecipação do prazo para adaptação às novas regras de setembro para maio. Ele assinala que se trata de um caso grave porque não houve simplesmente corte nos rendimentos, e sim, descapitalização.
“O quadro é preocupante, até porque, a tendência que se mostra não é de recuperação e sim de ocorrerem novas quedas. Em função das eleições, o governo não está conseguindo renegociar os títulos, principalmente os de prazos mais longos. Com isso, existe até mesmo a possibilidade de mudança no perfil da dívida pública, porque durante sete anos o governo trabalhou para alongar esse perfil e agora está havendo uma redução por conta do processo eleitoralâ€, observa.
A orientação de Lawi também é de aguardar os acontecimentos desta semana antes dos investidores decidirem se é melhor migrar para outros tipos de aplicação, como a poupança - que rende 0,7% ao mês - ou até mesmo investir em ouro. Os fundos de investimento estavam rendendo em torno de 1% ao mês.
“Dependendo do montante das aplicações que a pessoa tiver em fundos de renda fixa ou DI, uma saída pode ser distribuí-lo em outros tipos de aplicação. Mesmo assim, por ora é melhor aguardar pelo menos até o final desta semana para checar a rentabilidade dos fundosâ€, ressalta o economista.
Perdas diferentes
Alguns investidores procuraram o Jornal da Cidade querendo saber o motivo do percentual das perdas registradas na última sexta-feira ser diferente entre os bancos para um mesmo tipo de aplicação - renda fixa ou DI (que pagam uma variação pelos juros nos depósitos interbancários).
De acordo com o economista Reinaldo César Cafeo, isso ocorre em função da qualidade e do prazo do título em questão. Além disso, as taxas de administração variam de banco para banco.
“Quando se aplica num fundo, o investidor está dando uma procuração ao banco, gestor do fundo, para comprar papéis. No caso das perdas maiores, de até cerca de 5%, tratam-se papéis de longo prazo. Esses perderam mais valor de mercado. Os títulos de curto prazo perderam menosâ€, explica o economista.