Leio nos jornais que os jogadores brasileiros ficaram revoltados com a multa imposta a Rivaldo pela Fifa, pela encenação contra a Turquia. Defendem a malandragem como parte integrante do futebol, sendo, portanto, justificável, honesta, honrada.
Se é no futebol, é na vida, pois o futebol é parte da vida, como esporte coletivo, imitando a sociedade.
É, então, um exemplo a ser imitado.
Por que não ser malandro na vida? Por que não fazer encenação na vida? Por que não seguir o exemplo dos homens da Pátria com chuteiras?
O técnico da Seleção Brasileira defende também a malandragem. É, teoricamente, o líder do grupo. Um prefeito, um governador, um presidente da República, um alto executivo podem também defender a malandragem em seus cargos.
Grandes esportistas são hoje, provavelmente, os grandes exemplos que a juventude quer seguir, pelos ganhos que auferem, pela projeção que alcançam. E agora poderão também sê-lo pela defesa da malandragem explícita, pela revolta quando ela é denunciada, pela revolta quando ela é punida. A juventude, se pregar a malandragem, no esporte e na vida, para atingir objetivos, lícitos ou ilícitos, poderá ser punida? Ou dirá que a malandragem faz parte do esporte e da vida?
Que tal um médico ser malandro? Forçar diagnósticos graves para aumentar seus louros e auferir mais lucros? Que tal um médico, malandramente, dizer que faz curas milagrosas com um remédio que inventou? Poderá ser punido pela sociedade ou estará exercendo um direito que lhe foi ensinado por esportistas?
E os que passam fome? E os desempregados? Fica-lhes assegurado o pleno direito, maior que o dos jogadores brasileiros, de praticar a malandragem, pois estão necessitados e abandonados pelo Estado. O roubo, o assalto, o seqüestro, se justificados por malandragem, deverão ser punidos?
Provavelmente alguns pensem que são comparações muito radicais e esdrúxulas. Eu acredito que uma nação se forma integralmente, de comparações com sábios, ídolos, personagens representativas dos sonhos individuais. Por isso, sem medo de críticas, acho lamentável o posicionamento dos jogadores brasileiros.
Estão defendendo não a malandragem. Estão defendendo a desonestidade. (O autor, Luiz Fernando Ribeiro, é médico)