Entidades nacionais do setor agropecuário se reuniram no Ministério da Agricultura para avaliar os caminhos que o Brasil deve tomar para se proteger do desastroso impacto que a nova lei agrícola americana, denominada Farm Bill, pode acarretar para o País. Na reunião, estavam representadas as entidades que deverão integrar um fundo, já batizado de Fundesoja - Fundo Nacional para Defesa da Sojicultura Brasileira. Nele, a Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja) seria o elo que uniria os esforços da iniciativa privada, especialmente no que tange recursos financeiros, com as determinações políticas a serem adotadas pelo governo brasileiro contra o protecionismo nos EUA. A idéia é reunir recursos suficientes para contratação de empresas internacionais que avaliem e indiquem quais os recursos que o Brasil dispõe para ingressar com representação junto à Organização Mundial do Comércio (OMC) e se proteger da competição desleal que os subsídios americanos vão acarretar no mercado mundial de grãos. Do Fundesoja participariam, além da Aprosoja, a Confederação Nacional da Agricultura (CNA), Organização das Cooperativas do Brasil (OCB), Associação Brasileira de Sementes (Abrasem), Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) e Associação Nacional de Exportadores de Cereais (ANEC), além da Fundação MT, organização que também já antecipou disponibilidade de recursos.
O Fundesoja quer desencadear uma mobilização nacional em defesa de interesses econômicos e sociais que são de todo o Brasil, visto que o complexo soja é um dos mais importantes do agronegócio nacional. Em exportações, no ano passado, movimentou 4,8 bilhões de dólares, o que equivale a 21,3% das vendas externas do agribusiness e além disso emprega milhares e milhares de pessoas nas suas etapas de produção, beneficiamento e comercialização. O protecionismo americano é inaceitável para este setor do agronegócio e ofende o segmento de soja no Brasil, porque a alta competitividade da soja brasileira é mérito da pesquisa e do produtor nacionais, que conseguiram reduzir custos e elevar a qualidade e produtividade da sojicultura. Atualmente, para produzirmos um saco de 60 quilos de soja, são empregados US$ 6,50, contra US$ 9,50 que eram o custo que tínhamos quatro anos atrás. Nos Estados Unidos, o custo da produção de soja hoje é quase o dobro do nosso, ou seja US$ 12,5 para cada saco de 60 quilos, o que os torna pouquíssimo competitivos.
Ocorre que nesta corrida pelo mercado internacional o governo brasileiro espera que o setor se mobilize em defesa da sojicultura nacional, contando com apoio do Ministério da Agricultura para se fazer representar junto à OMC. Deixando as questões financeiras de lado, ainda que sejam da mais alta relevância, o que a Aprosoja defende é que o caminho seja inverso: o governo brasileiro é que deve se posicionar e ingressar ele mesmo junto à OMC contra os itens da Farm Bill, que agridem os interesses da produção nacional. Contaria, naturalmente, com apoio irrestrito das lideranças brasileiras do setor, também na alocação de recursos.
A agricultura nacional é um setor que se legitima pela sua ética e capacidade, e que historicamente sustenta parte importante da economia brasileira. E não deve ser sacrificada em defesa de manobras políticas internacionais relacionadas à pirataria e patentes. É preciso envolvimento de todo o setor, mas é indispensável que o governo brasileiro tome para si a defesa incondicional da agricultura.
O produtor de soja já convive com outras dificuldades, e ainda que sobreviva à odiosa Farm Bill, terá de enfrentar dois outros desafios que vêm pela frente: a nematóide e a ferrugem da soja, duas doenças que estão se alastrando pelo País e que deverão causar enormes prejuízos à produção.
Por isso, é imperativa uma união de setor, incluindo outros produtores, como os de algodão, envolvendo o governo brasileiro e até de países vizinhos, que também vão se ressentir com a política protecionista dos EUA. (O autor, Ywao Miyamoto, é presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Soja)