Nunca é tarde para se aprender. Esse é o espírito que move a vida da aposentada Marilene Casarini Macedo, que, aos 66 anos de idade, está prestes a se tornar a mais “nova†motorista da região.
Ela já foi aprovada em todos os exames e cursos - médico, psicotécnico, direção defensiva, cidadania e mecânica - obrigatórios para quem está tirando a carteira de habilitação pela primeira vez. Os próximos e principais passos são as aulas práticas ao volante, que devem iniciar-se dentro dos próximos dias. “Se soubesse que hoje em dia exige-se tudo isso, não teria demorado tanto tempo para tirar cartaâ€, ressalta a aposentada.
Residente no distrito de Tibiriçá - cerca de 20 quilômetros de Bauru - há três anos, Marilene destaca que resolveu aprender a dirigir motivada por sentimentos que misturam a necessidade e o desejo de se tornar “independenteâ€. “Meu marido caiu no quintal e se machucou. Como aqui é um lugar pequeno e sem recursos, precisamos correr para chamar um vizinho, que foi muito prestativo e nos levou até o hospitalâ€, conta ela.
O episódio foi determinante para Marilene resolver tirar a carteira de motorista, mesmo ainda não possuindo um automóvel na garagem. “Me propus a isso, pois nunca gostei de guiar e nem tive intenção. Mas, agora estou firme neste propósito e se não passar nas aulas práticas faço novamenteâ€, enfatiza a aposentada.
Mas também pesou muito na sua decisão o fato de depender dos veículos dos filhos para cumprir tarefas rotineiras do dia-a-dia, como ir ao supermercado. Segundo a aposentada, a carta será a “chave†de sua libertação. “Meu marido já não pode dirigir mais e não quero ficar dependendo dos meus filhos. Eles têm uma vida muito corrida e, no entanto, precisam ficar achando tempo para dar atenção às necessidades da mãeâ€, diz.
A tibiriçaense complementa que seus filhos nunca lhe negaram nada, mas afirma que pode ser auto-suficiente. “Eles são maravilhosos para mim, mas tenho perna e braço e posso fazer tudo. Então, para que vou ficar dependendo deles?â€, questiona Marilene.
Mas engana-se quem pensa que a aposentada quer tirar a carta apenas para ficar na labuta. Ela também se preocupa com o lazer e, nessa hora, confessa ser admiradora de música. “Gosto de ir ao Sesc e na Terceira Idade, mas acabo ficando em casa porque não sei dirigir. Além disso, em Bauru aparece cada show bom! Assim que tiver meu carro, eu e meu marido poderemos assisti-los sem problemasâ€, sonha.
Entretanto, tais sonhos só se tornarão realidade para Marilene após encarar as aulas práticas, para as quais ela diz não alimentar expectativas. “Sou muito calma e não estou nervosa e ansiosa. Só quando chegar a hora é que poderei saber o que irei sentirâ€, frisa a aposentada.
Para ela, a nova sistemática adotada pelo governo para tirar a carta traz vários benefícios. “Motoristas experientes não sabem muitas coisas que os recém-habilitados aprendem durante o processo de retirada da cartaâ€, considera Marilene. E exemplifica: “Mecânica é uma aula básica, mas nos dá conhecimento suficiente para levar o carro ao mecânico e saber onde este irá mexer. A partir de agora, eles não irão me enganar fácil.â€
Segundo Marilene, ela aprendeu coisas simples que, à primeira vista, parecem difícil para quem não sabe dirigir, como trocar um pneu furado. “Achava que era preciso gastar muita força, mas é necessário muito mais jeito. Isso é bom, pois a mulher tem de ser independente e aprender a se virar em certas situações. Nesse caso, se ela estiver sozinha na estrada saberá como fazerâ€, afirma.
Perfil
• Nome Marilene Casarini Macedo
• Idade 66 anos
• Estado civil Casada, quatro filhos
• Lugar para passear Foz do Iguaçu e a nascente do rio São Francisco, em Minas Gerais
• Time do coração São Paulo
• Hobby Mexer com plantas e realizar trabalhos voluntários
• Quem a senhora nunca levaria como passageiro quando tiver um carro?
“O meu marido vai, mas somente no banco de trás, pois ele dá muito palpite. Quando ele tentou me ensinar a dirigir, só sabia ficar bravo comigo.â€
• E quem a senhora faria questão de levar no seu automóvel?
“Minha mãe Josefa.â€
• Apesar da senhora ainda nunca ter dirigido, o que mais a deixaria irritada no trânsito?
“Meus filhos sempre me levam onde preciso e, por essa razão, fico atenta ao comportamento dos motoristas. A pressa deles e a desatenção certamente me irritariam. Um dia até repreendi um de meus filhos quando ele parou a menos de cinco metros de distância da esquina.â€
Ela nunca gostou de carro
Apesar de querer tirar a carta, Marilene revela que nunca ligou muito para os automóveis. “Meu marido sempre teve carro e meus filhos, depois que cresceram, começaram a trabalhar e também compraram os deles. Com isso, onde eu queria ir, eles me levavam e, assim, não tinha vontade de ter um veículoâ€, argumenta ela.
E foi justamente por isso, conforme a aposentada, que o gosto pelos carros começou a despertar somente agora, depois dos 60 anos. “Estava guardando um dinheiro para comprar uma casa, pois pago aluguel, mas depois que meu marido caiu resolvi tirar a carta. Com um pouco que venho poupando e a ajuda de meus filhos já vai dar para comprar um carrinho. Não vai ser um zero, mas pelo menos um que de para eu ir e voltar de Bauruâ€, diz Marilene.
Na hora de eleger seus modelos preferidos, a tibiriçaense não titubeia em revelar que a escolha recairá provavelmente entre um Ford Ka ou um Chevrolet Corsa. “Não tenho um veículo dos sonhos, mas queria um Ka, que é pequeno e cabe em qualquer lugar, ou um Corsa. Não precisa ter acessórios modernos, como ar-condicionado ou direção hidráulica, pois nunca tive carro, mas um radinho para ouvir música faço questão.â€
Lugar cativo
Os os futuros passageiros daquele que se transformará no primeiro automóvel de Marilene não terão vida fácil, pois deverão obedecer as “regras†que ela promete impor. Quem encabeça a lista de potenciais usuários do carro é o “seu†José, esposo da aposentada. Para ele, conforme a candidata a motorista, o lugar do veículo já está reservado: o banco traseiro.
Ela justifica a posição, argumentando que o marido é muito “palpiteiroâ€. “Já pensou uma pessoa ficar o tempo inteiro ao seu lado falando como se deve dirigir. Por essa razão, serei a motorista particular deleâ€, afirma ela, rindo. Entretanto, segundo a aposentada, o marido não ganhou a fama de “reclamão†à toa.
Tudo começou quando “seu†José se propôs a ensiná-la a dirigir quando eles ainda tinham carro. “Me acomodei no banco e, quando fui dar a partida, liguei a chave de maneira errada e ele já ficou bravo comigo. Na mesma hora, abri a porta e sai decidida a não aprender nunca mais, pois ele não tem paciênciaâ€, conta Marilene. â€œÉ que ela não sabia dirigirâ€, defende-se José.
Nem a boa vontade dos filhos a convenceu do contrário. Para a aposentada, lugar de aprender a dirigir é na auto-escola. “Eles sempre se ofereciam para isso, mas eu não aceitava porque acho que me ensinariam errado, do jeito deles. Tudo que se começa errado na vida não vai para frente, como o casamento. Meus filhos falavam que eu era orgulhosa, mas não é essa a questão. Está faltando pouco e já esperei 66 anos para tirar a cartaâ€, considera.
Mesmo assim, ela já conta os dias para tornar-se uma motorista e já sabe até qual a primeira coisa que irá fazer quando comprar um veículo. “Vou dar um passeio com minha mãe. Já falei até para ela se preparar, pois será a primeira a andar no meu carro. Daí iremos pescar o dia inteiro e, ainda, trazer os peixes no automóvel. Se meus filhos tiverem coragem de andar no meu carro eu os levareiâ€, condiciona ela, rindo.
Contra a aposentadoria
Foi para buscar tranqüilidade que Marilene e “seo†José mudaram-se para o calmo e pacato distrito de Tibiriçá. Depois de morar alguns anos em uma agitada via bauruense, o casal optou por renovar os ares. “Quis morar em um lugar afastado porque Bauru estava demais. Residíamos em uma avenida e o barulho nos atormentava diariamente. Por isso, depois de me aposentar preferi buscar um pouco de paz e silêncioâ€, salienta ela.
Apesar disso, e mostrando disposição e carisma de dar inveja a muitos jovens, a simpática Marilene diz ser contra a aposentadoria. “Não devemos parar de trabalhar, pois nos acomodamos e ficamos deixando as coisas para depois. Isso não é certo e precisamos ter atividades para nos sentirmos de bem com a vida e a saúde em dia. Por isso, entendo que tirar a carteira de habilitação também é uma forma de me sentir ativa e útilâ€, finaliza Marilene.