O povo brasileiro é mundialmente conhecido por arrumar um “jeitinho†para resolver tudo. No trânsito bauruense não poderia ser diferente, principalmente durante os comandos de fiscalização, uma das situações preferidas para tal comportamento ser posto em prática.
Os policiais que participam das operações, realizadas regularmente em locais estratégicos da cidade, comprovam a tendência. Segundo o sargento Antonio Carlos Rodrigues, da 4.ª Companhia de Trânsito de Bauru, os motoristas arrumam as mais variadas desculpas para tentar se safar das autuações. “O mais comum, no caso da falta do cinto de segurança, é falar que estava abastecendo o carro e esqueceu de colocá-loâ€, afirma.
Já quando o condutor é surpreendido com a documentação irregular, principalmente se o veículo está com o licenciamento atrasado, as argumentações são diferentes. “As principais são a de que o documento já está no despachante ou esqueceu em casaâ€, diz Rodrigues.
Ele acrescenta que outra situação freqüente ocorre quando os automóveis têm de ser recolhidos ao pátio. “Para evitar isso, muitos argumentam que é sua única condução para se deslocar ao trabalho ou que estão sem dinheiroâ€, conta o policial.
O sargento Silvio Carlos Rossi é outro que “coleciona†em sua memória uma lista de desculpas dos condutores. “Se fôssemos colocá-las em um livro, daria para preencher umas 400 páginasâ€, brinca ele. Das inúmeras vezes em que esteve presente nos bloqueios, Rossi recorda-se de um em especial realizado na avenida Duque de Caxias quando abordou um motorista com uma criança pequena sentada no banco da frente.
“Pedimos para parar porque ele e a criança não estavam usando o cinto. Ele argumentou que estava indo no médico levar o filho e que, por isso, não havia posto o acessório de segurança. Entretanto, quando um outro policial foi conversar com o menino este falou que estava indo na aula de inglês e desmentiu o pai na cara deleâ€, relembra Rossi.
Mas os policiais também não se esquecem das reações curiosas dos motoristas. Em uma delas, uma mulher foi a protagonista. “Um sargento parou-a na Duque de Caxias e ela falou que não havia colocado o cinto porque a unha dela estava com esmalte e não teve a oportunide de secá-lo. Quando o policial pediu os documentos para dar uma olhada, ela falou que não podia pegar porque no momento em que fosse abrir a bolsa o esmalte iria estragarâ€, conta Rossi.
Mas ele também já foi “vítima†de um motorista temperamental. Após autuar um veículo na Nações Unidas e avisar ao condutor que seu automóvel iria ser guinchado, Rossi foi surpreendido. “O cidadão tirou todas as coisas dele para fora do carro e falou que a partir daquele momento eu era o responsável por ele. Ele não queria sair do local e exigia que eu arrumasse um táxi ou um ônibus para ele ir emboraâ€, destaca o policial.
Flagrantes
Para observar as reações dos motoristas às blitze, a reportagem do Auto Mercado&Cia acompanhou uma dessas operações, realizadas regularmente pela Polícia Militar em locais estratégicos da cidade. Em apenas uma hora, no cruzamento da avenida Rodrigues Alves com a Alameda Otávio Mangabeira, foi possível presenciar alguns flagrantes do “jeitinho†brasileiro.
Após ser multado por não estar utilizando o cinto de segurança, o motorista Gláucio Hudson Pacheco tentou justificar-se com uma desculpa “típicaâ€, segundo os policiais. “Aprovo as fiscalizações no trânsito, mas estava sem o cinto porque acabei de sair do posto de gasolina e esqueci de colocá-loâ€, pondera ele.
Parado inicialmente também por estar sem cinto, o mariliense Nilton acabou com o veículo - um Santana - recolhido. Para piorar, segundo ele, o automóvel era emprestado. Ao ser abordado pelos PMs, foi logo se justificando: “Meu caminhão quebrou e estava atrás de peças para ele. Então resolvi emprestá-lo, mas o dono dele falou para não pegar o carro porque o documento estava no despachante. Mesmo assim insistiâ€, alega ele.
Mas, de nada adiantou a “choradeira†de Nilton. Após uma rápida pesquisa junto a um despachante, foi constatado que o veículo não estava licenciado e possuía outras irregularidades. “Além disso, está com os pneus carecas e seus ocupantes não utilizavam o cintoâ€, complementa um policial que integrava o comando. Desta forma, Nilton acabou sendo multado três vezes.