Pessoas que enfrentam situações que impliquem em risco de morte podem desenvolver uma doença denominada estresse pós-traumático. Trata-se de uma seqüela que deixa marcas profundas, como perda da segurança interior, alterações neurológicas e desvios de conduta (alcoolismo, drogadição). Suas reações variam de pessoa para pessoa e podem amenizar com o tempo.
O problema é comum e pode afetar pessoas independentemente de classe social, sexo ou nível de educação. “Ainda não se sabe porquê algumas pessoas desenvolvem o problema e outras, nãoâ€, explica Sandra Leal Calais, professora de terapia comportamental do curso de psicologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp), câmpus de Bauru.
Ela concluiu, no mês passado, a sua tese de doutorado sobre o assunto. Denominado de “Estresse pós-traumático - Intervenção clínica em vítimas secundáriasâ€, o trabalho aborda, principalmente, as conseqüências dos traumas na vida dos bombeiros.
Sandra passou mais de seis meses acompanhando o dia-a-dia da corporação, vivenciando a rotina do quartel e fazendo intervenções psicológicas junto aos policiais. “Apesar de toda a adrenalina que vivem, os bombeiros adoram a profissãoâ€, salienta.
A professora explica que o estresse pós-traumático pode atingir pessoas de duas maneiras: primária e secundária.
As vítimas primárias são aquelas que estão envolvidas diretamente com alguma tragédia ou catástrofe, como acidentados, por exemplo.
As secundárias seriam as que, de alguma maneira, estão muito próximas do problema, como familiares de um acidentado, controladores de vôo, bombeiros, médicos de pronto-socorro, etc.
“Cada pessoa encara o estresse de uma maneira. Para algumas, ele praticamente não existe. Para outras, o trauma é para toda a vidaâ€, diz, explicando que ainda não há como entender porquê isso ocorre.
Sintomas
Só é possível identificar os sintomas do estresse pós-traumático depois de um certo período. Isso acontece porque, nos primeiros 30 dias após o trauma, a pessoa ainda está em choque. “No início, existe a condição do choque, a pessoa ainda não tem como administrar bem o que aconteceuâ€, destaca a professora doutora.
Depois disso, a tendência é a dor amenizar e ocorrer a superação do problema. “Quando isso não acontece, está caracterizado o estresseâ€, diz.
As manifestações do problema podem se dar de três maneiras: através da revivência dos fatos, ou seja, a pessoa fica lembrando o tempo todo os detalhes do que houve; com a esquiva, isto é, a vítima evita comentar o que ocorreu; e com a excitabilidade. A pessoa se torna agressiva, irritada e tem problemas neuro-fisiológicos.
Bombeiro se acidenta ao socorrer uma vítima
O soldado Carlos Alberto Silva, do Corpo de Bombeiros de Bauru, viveu um drama inusitado e muito doloroso.
Ele era motorista da Unidade Resgate do Corpo de Bombeiros quando acabou sofrendo um grave acidente. Enquanto socorria uma vítima na estrada, um ônibus bateu na viatura e o veículo tombou por cima dele e de mais dois companheiros.
O acidente aconteceu no dia 8 de março de 1999 e marcou a vida do soldado, embora ele fosse acostumado a lidar com situação de risco. “Quando nós estamos prestando socorro a uma pessoa que a gente não conhece é diferenteâ€, ressalta.
Ele conta que as conseqüências do acidente abalaram durante muito tempo o seu emocional. “Foi horrível. Constantemente eu acordava durante a noite gritando, chorando, lembrando do que ocorreu naquele dia.â€
Ele acredita que isso tenha acontecido principalmente por ele ter sido o único que não desmaiou na hora do acidente. “Mesmo com a costela quebrada, eu ajudei a socorrer os meus companheirosâ€, destaca.
O sargento da equipe sofreu traumatismo craniano e o cabo, teve uma lesão na espinha.
Silva ficou dois anos afastado da corporação. Durante esse período, ele precisou fazer um tratamento com calmantes e iniciar uma terapia para superar o trauma.
Hoje ele voltou para o quartel, mas não exerce mais a atividade que tanto gostava. Por causa do problema na coluna, o soldado não pode pegar peso e ficou restrito ao trabalho administrativo. “Eu tenho amor e carinho pela minha profissão e estou triste por não poder trabalhar no resgate. Era o que eu mais gostava de fazerâ€, lamenta.
O estresse pós-traumático também se manifesta de forma secundária, ou seja, atinge as pessoas que convivem com situações trágicas, como é o caso de familiares de pessoas que morrem em acidentes de trânsito.
Apesar da manifestação ser diferente, ela não é menos dolorosa.
A dona-de-casa Aparecida Francisco Carvalho até hoje chora quando fala sobre o que aconteceu com o seu filho, Amilton Francisco Carvalho.
No dia 6 de junho de 1989, ele faleceu em um acidente de carro, na rodovia Bauru-Ipaussu, com 22 anos de idade. “A gente não esquece jamais o que aconteceu. Ele faz muita falta para a famíliaâ€, diz.
Ela salienta que a dor ameniza ao longo do tempo, mas que o trauma deixou muitas seqüelas. “Eu falo com ele todos os dias, como se ele estivesse vivo.â€
A dor aumenta em momentos festivos, como Natal e Ano-Novo, quando a família se reúne.
Aparecida, que tem outros três filhos, diz que o que ajudou a família a suportar a morte de Amilton foi a religião. “Se a gente não tivesse tanta fé em Deus, eu não sei o que teria acontecido. A gente perde o rumo da vidaâ€, salienta.