A eleição presidencial de outubro não estará sob a influência do resultado da campanha da seleção brasileira na Copa do Mundo. A afirmação é do professor e historiador João Francisco Tidei de Lima. Para ele, se algum governante e candidato à Presidência da República tentar capitalizar politicamente uma eventual vitória da seleção canarinho, vai se frustar.
â€œÉ claro que vamos torcer, mas nada de pátria nas chuteiras. Não acho que nosso povo está nesse climaâ€, avalia. Lima diz que é perceptível que o País se agita em época de Copa do Mundo.
“Na conjuntura social gravíssima que vivemos, é fácil identificar que os torcedores buscam uma autoafirmação, pelo menos no futebol.†O historiador lembra que os últimos números da Organização das Nações Unidas (ONU) colocam o Brasil como campeão mundial do desemprego, de assassinatos, de acidentes de trânsito, além de liderar outras negligências sociais.
“Por tudo isso, não seria pedir demais que, pelo menos no futebol, a alegria não nos seja sonegadaâ€, opina. Lima não nega que sempre houve e haverá - em todo o mundo - relação entre futebol e política.
“Agora, é preciso verificar as formas, as motivações e os resultados que essa relação assumiu através dos tempos e nos diferentes lugares.
João Saldanha
Ele lembra que o “lendário†João Saldanha - que repartia seu dia-a-dia entre a política e o futebol - costuma relativizar, e às vezes, até negar, a eficácia da utilização política do futebol por governos ou regimes políticos interessados em se promoverem junto à opinião pública.
“Saldanha, que praticamente montou o maravilhoso time tricampeão do mundo da Copa do México de 1970, costumava lembrar o caso do ditador fascista Benito Mussolini, que presidia a Itália nos anos de conquista do bicampeonato mundial em 1934 e 1938, mas nem por isso livrou-se de ter sido deposto e fuzilado pelo povo italiano em 1945â€, lembra.
O professor retoma o período da ditadura militar brasileira para dizer que a então Confederação Brasileira dos Desportos (CBD) era presidida pelo almirante Heleno Nunes. “Ele não tinha a menor inibição em usar ostensivamente a política para administrar o futebol e vice-versa. Tanto é que, jocosamente se dizia, na década de 70, onde a Arena vai mal, um time no nacional.â€
O historiador rememora que a Arena era o partido do governo e o campeonato nacional era organizado com critérios políticos e partidários.
“Por exemplo, nas eleições municipais de 1976, o governo tinha interesse em ganhar a eleição em Campinas, onde a oposição era muito forte. O almirante não teve dúvida: enfiou à força a Ponte Preta, clube mais popular da cidade, no campeonato nacional. Mas não adiantou. O governo perdeu de goleada a eleição.â€
Utilização política
Lima acha que, independentemente de funcionar ou não, a utilização política do futebol não pode ser descartada no dia-a-dia.
“Todos sabemos que a gravíssima crise social que hoje abala o Brasil também se reflete no futebol e com visíveis ingredientes políticos. Esta aí a forma mafiosa como são organizados os nossos campeonatos e as entidades que dirigem o futebol do Brasil e dos Estados.â€
Para ele, Ricardo Teixeira, Eurico Miranda e outros mandam e desmandam, sem a menor preocupação de esconder mazelas e encobrir a promiscuidade que mistura as relações empresariais, esportivas e políticas da vida de cada um.
O historiador afirma que mesmo diante desse quadro negativo - que afugenta o público dos estádios e produz uma atmosfera de desencanto - o futebol segue sendo a modalidade de esporte mais popular do Brasil.
A comparação das Copas do Mundo contemporâneas com as do passado remete o professor ao saudosismo. “No passado, o futebol era menos mercantilizado. A quase totalidade dos jogadores atuava por aqui mesmo. Eles estavam profundamente identificados com o nosso cotidiano, de alegrias e de tristezas.â€
Lima, porém, diz que hoje a realidade é outra. “Atualmente, nossos jogadores são tutelados por empresários e titulares de contratos milionários com clubes do exterior. Vivem há cinco, dez anos a realidade de outros países, sem nenhum envolvimento com os dramas da enorme massa torcedora que vive no Brasil.â€
Fala povo
Você acredita que o resultado da campanha da seleção brasileira na Copa do Mundo poderá influenciar a eleição deste ano?
“Não vai influenciar em nada. Acho que entre futebol e política não há relação. O povo espera alegria da seleção. E da política, esperança.†(Anísio Ferreira, motorista)
“Não vejo qualquer relação entre os dois assuntos. O povo não mistura política e futebol. Não acho que na hora de votar alguém se lembrará da Copa.†(Fátima Gonçalves, doméstica)
“Acredito que sim. Os assuntos estão interligados. Se o Brasil ganhar, acho que o Lula (Luiz Inácio Lula da Silva, do PT) vai ser favorecido.†(Vera Dias, auxiliar administrativa)
“De jeito nenhum. Não tem nada ver uma coisa com outra. Não vejo como isso poderá alterar o rumo da eleição de outubro próximo.†(Maurílio Raimundo, vendedor)