Vivemos na última semana uma nova etapa da crise de confiança que alcançou a economia brasileira, nesse início de período pré-eleitoral. Mais uma vez, as cotações do dólar dispararam nos mercados à vista e futuro e no chamado risco Brasil atingiu a marca dos 12% ao ano. O C-Bond, o título mais negociado de nossa dívida externa, terminou a semana rendendo mais de 16% ao ano, em dólar. Uma taxa absurda, principalmente se comparada com o rendimento de títulos de países com economia bem menos organizadas e dinâmicas do que a nossa. Mais grave, entretanto, foi a crise no mercado de títulos públicos internos e, portanto em reais, que obrigou o Banco Central a trocar papéis com vencimentos em 2004 a 2006 por títulos que serão resgatados no começo do ano que vem. A política de alongamento dos vencimentos da dívida interna que vinha sendo operada pelo governo, ao longo dos últimos anos soçobrou em poucos dias.
De repente, nós brasileiros nos vemos de volta com um clima de insegurança financeira que pensávamos ter terminado! Dúvidas do tipo o que fazer com meu dinheiro, não para ter o maior rendimentos possível, mas para evitar perdas patrimoniais, voltaram a um grande número de brasileiros. Tenho certeza que devo refletir um pouco sobre essa questão, nesse nosso encontro de todos os domingos.
Meu primeiro ponto é que a crise é real e deve preocupar a todos! Em segundo lugar, sua origem é muito mais complexa do que uma simples sucessão de erros do Banco Central, como parte do que a imprensa repercutiu nos últimos dias. Finalmente, há muito pouco o que o governo pode fazer para reduzir as tensões e minimizar os efeitos sobre todos nós de toda essa movimentação.
A gravidade da situação atual decorre do fato de que podemos estar jogando fora uma boa parte dos ganhos do período FHC. Ganhos que foram obtidos a custa de sacrifícios gigantescos de boa parte da sociedade. Pensar em voltar aos dias de correria aos supermercados, às aplicações diárias no overnight, às negociações salariais todos os meses e outros comportamentos neuróticos que foram a marca de nossa sociedade, que parecia a todos nós tão distante como a Lua. Evidente, que os riscos associados a esse retrocesso são hoje muito reduzidos. A sociedade brasileira evoluiu muito e não acredito que governo algum, por mais irresponsável que seja, vai novamente trilhar esse caminho. Além disso, o governo FHC realizou reformas institucionais importantes, principalmente na área fiscal, que impedem ações administrativas que produzam a volta de déficits públicos de grande magnitude. Mas existe ainda um enorme espaço para que a estabilidade dos últimos anos seja posta em cheque.
Os elos mais frágeis de nosso equilíbrio macroeconômico atual são dois: a rolagem de nossas contas externas e a administração da dívida mobiliária interna. A normalidade da administração desses dois macro-endividamentos é fundamental para que, nos próximos anos, possamos reduzir a fragilidade financeira, em dólares e em reais, que tem caracterizado nossa economia. Evidente que não há mais espaço para tratar dessas questões, com a política que ficou conhecida como malanismo e que trabalha com juros internos elevadíssimos e com um crescimento medíocre da economia. Essa opção já está descartada, e a saída do ministro da Fazenda que tivemos por oito anos é hoje uma questão de tempo. Felizmente muito pouco tempo.
Mas o que teremos no lugar é a grande incógnita de hoje e a razão de toda essa agitação nos mercados. A alternativa Serra é conhecida e aceita com normalidade pelos meios de negócio aqui e no exterior. Mas, a revolta da população com a situação econômica dos últimos anos tem enfraquecido de maneira importante a posição eleitoral do senador por São Paulo. Por outro lado, a incapacidade do PT e de seu candidato Lula de responder a questões mais simples sobre a orientação econômica de seu governo, tem criado um clima de grande ansiedade nos mercados. Além disso, são vários membros do partido que vem falando sobre economia e apresentando soluções disparatadas sobre nossos problemas sociais e econômicos.
Nessa situação de insegurança política nossa fragilidade financeira fica mais grave e provoca reações pouco sensatas dos mercados. É o que está acontecendo hoje!