Cultura

Como é que se diz eu te amo...

Por Padre Beto | Especial para o JC Cultura
| Tempo de leitura: 4 min

“Agora, portanto, permanecem fé, esperança, amor, estas três coisas. A maior delas, porém, é o amor” (1 Cor. 13, 13). Afirmam alguns estudiosos que Paulo escreveu seu texto sobre o amor antes de sua conversão, em um momento em que o futuro apóstolo de Jesus Cristo ansiava por viver uma das experiências mais profundas do ser humano: a de amar e ser amado.

Em uma linguagem teológica, o amor é a base do chamado “sacramento do matrimônio”, pois este sentimento é sinal vivo da presença de Deus entre duas pessoas. Neste sentido, não se deve confundir “casamento” com o “sacramento do matrimônio”, pois, pela razão de já existir o “sacramento do matrimônio” é que duas pessoas reúnem seus familiares e amigos para se casarem em uma igreja.

O casamento é a ritualização, a celebração do que já vinha acontecendo. Deus que é amor (1 Jo 4, 16) começa estar presente já nos primeiros momentos nos quais duas pessoas sentem algo de especial uma pela outra. De uma atração que não conhecemos bem o porquê de seu surgimento, vai crescendo a gostosa vontade não somente de ver, mas também de permanecer juntos. Aqui, o “sacramento do matrimônio”, a presença de Deus, inicia seu desenvolvimento e deve ser entendido como um “processo-relação” que busca o amadurecimento e uma cada vez mais profunda intimidade.

Um dos pontos altos deste desenvolvimento é o casamento, ou seja, a ritualização do que já vinha acontecendo e, com as Bênçãos de Deus, o início de uma nova etapa da relação: a constituição de um lar e de uma família. Depois desta celebração do amor, ou seja, do casamento, o “sacramento do matrimônio” continua a se desenvolver e se aprofundar encontrando, mais tarde, outros pontos altos como, por exemplo, o surgimento de filhos.

Como não poderia deixar de ser, duas pessoas que se amam nunca são duas pessoas iguais. Por este motivo, sempre haverá entre elas divergências de opiniões, diferentes modos de ver e entender o mundo, disparidades de comportamento.

Muitas vezes são justamente pólos opostos que são unidos pelo o amor. Por isso, se a relação a dois for autêntica e verdadeira, na qual não existe submissão e ninguém está representando um papel, haverá certamente conflito, discussões e até mesmo brigas. Portanto, à relação de amor pertencem não somente momentos alegres, mas também pequenas e grandes crises. Estas não significam necessariamente um perigo, mas podem levar ao amadurecimento do amor.

Dependendo das circunstâncias e do grau do relacionamento, as crises são acompanhadas pelo interesse mútuo de sua superação. Afinal, o amor é preocupação ativa pela vida e crescimento daquilo que amamos.

A relação a dois é, em sua estrutura, um desafio, ao mesmo tempo, dolorido e prazeroso. Ela é um constante ganhar e doar, conquistar e ceder chegando a um estágio no qual ceder e doar acabam tendo o gosto de ganhar e conquistar.

Esta dinâmica do relacionamento expressa-se de forma extremamente clara na dimensão sexual, onde os dois dão-se mutuamente e recebem mutuamente o prazer.

A relação sexual não existe somente para a reprodução, mas é uma das expressões mais profundas e bonitas do dizer “Eu te amo”. “A mais importante esfera de dar não é a das coisas materiais, mas está no reino especificamente humano. Que dá uma pessoa à outra? Dá de si mesma, do que tem de mais precioso, dá de sua vida” (Erich Fromm).

Fundamental é entender que a relação de amor é sempre uma relação a três, pois amar alguém não é questão de escolha. O amor surge quando e como ele deseja. Além das duas pessoas que se amam, o próprio sentimento de amor é um ser independente na relação. Foi ele quem escolheu aproximar duas pessoas e é ele que as mantém juntas.

Importante aqui é não esquecer que o próprio amor precisa de tempo e atenção dos amantes. Nós podemos comparar este sentimento com uma pequena planta. Esta precisa de atenção, de carinho e cuidado. Se eu não abastecê-la de água e adubo, se não a coloco em um lugar agradável para seu desenvolvimento, esta planta acaba morrendo.

O mesmo acontece com o amor. Se o sentimento de amor não possui a atenção dos amantes, ele se enfraquece e morre. Se isso acontece, é muito difícil fazê-lo reviver novamente. Sem o amor, as duas pessoas que construíram um lar, deixam de ser amantes e acabam sendo somente dois estranhos dividindo as despesas e mantendo uma aparência social.

Como o amor é um presente, ou seja, algo gratuito, é impossível encontrar regras para institucionalizá-lo. O amor não é instituição, mas sentimento vivo. O seu surgimento não é uma questão de opção. Muitas vezes amamos alguém que não gostaríamos de amar. Outras vezes, não sentimos nada por alguém com o qual gostaríamos de construir uma relação.

Assim, o amor deve ser entendido como um privilégio. Portanto, para recusá-lo precisamos ter um ótimo motivo, caso contrário, estaremos perdendo uma chance, talvez única, de sermos felizes.

“Quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração e quem um dia irá dizer que não existe razão” (Renato Russo).

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