É com imenso pesar que escrevo este artigo, pois ainda me encontro absorvido e anestesiado pelo abominável e cruel assassinato do jornalista Tim Lopes, confirmado na data de ontem, não porque o conhecesse, longe disso, mas sim porque é mais uma voz que se cala, que tomba nesse infindável campo de batalha que é a desigual luta pela defesa dos mais fracos, dos mais necessitados, enfim, dos nossos descamisados, tão esquecidos pelo Poder Público, o qual assiste ao triste e sombrio espetáculo fúnebre mais preocupado com a repercussão que o fato trará nas próximas pesquisas eleitorais do que com a proteção de sua população e da punição severa dos nefastos algozes de nosso povo.
Em verdade, choca ainda mais sabermos que a execução do valoroso profissional da informação se deu permeada a requintes de crueldade, bem como com toques de irreverência criminalística jamais vista em tempos outros, pois, agora, além do pessoal devotado ao banditismo possuir mais equipamentos bélicos que nossa própria polícia, se arvoraram (inacreditável!) no direito de se imiscuírem nas figuras sacra e institucional de Deus e de magistrado, formulando “julgamentos†onde passam, pasmem, a decidir sobre a continuidade ou não da vida de um ser humano: é o inacreditável surgimento do veredicto do crime, o qual não está sujeito a qualquer tipo de recurso ou de justiça, mas apenas e tão somente a ódio, dor e, infelizmente, morte.
Assim, a abrupta morte do jornalista Tim Lopes representa, sem sombra de dúvidas, um duro golpe nas instituições democráticas de nosso país, uma odiosa tentativa de fazer calar a voz altissonante da imprensa, da imprensa legítima que se preocupa em investigar, em denunciar, em demonstrar para a sociedade a verdadeira face do mundo em que vivemos, das pessoas que nos governam, do sistema que nos rege e nos oprime, imprensa essa sempre disposta a lutar e a morrer pelo nosso constitucional e indispensável direito à informação, imprensa essa que tem na figura do jornalista sério a verdadeira concretização do amor sem limites à proteção e ao resguardo de tudo o quanto representa uma, ainda que longínqua, possibilidade de um país justo, igual, fraternal, bem-informado e pacífico.
Tenho para mim que o açodado passamento do jornalista Tim Lopes, depois de passada a dor e a indignação, se transformará, definitivamente, em estandarte talhado e trazido no coração de cada profissional do jornalismo. Estandarte representativo da coragem de cada um em continuar caminhando na direção correta, na coragem de cada um em continuar lutando, com todas as forças, contra as mais diversas formas de opressão e de intimidação, pois, como bem ponderou Karl Marx, “a imprensa livre é o olhar onipotente do povo, a confiança personalizada do povo nele mesmo, o vínculo articulado que une o indivíduo ao Estado e ao mundo, a cultura incorporada que transforma lutas materiais em lutas intelectuais, e idealiza suas formas brutas. É a franca confissão do povo a si mesmo, e sabemos que o poder da confissão é o de redimir. A imprensa livre é o espelho intelectual no qual o povo se vê, e a visão a si mesmo é a primeira condição da sabedoriaâ€.
Mais não será preciso dizer. (O autor, Cláudio José Amaral Bahia, é advogado - OAB/SP 147.106)