A recente pressão em favor de mudanças no sistema político palestino não é novidade e nem de origem externa. Provém de um processo interno gestado durante anos e compreende a adoção de um programa de reformas estruturais, legais e processuais. Em nada ajuda a este processo a interferência estrangeira sob o pretexto de apoiar a democratização palestina e menos ainda a pretensão do governo de Israel de condicionar a abertura de negociações bilaterais à realização de tais reformas. Os palestinos médios sentem-se crescentemente frustrados devido à conduta repressiva e às práticas ilegais de seus serviços de segurança e à ineficiente e inepta administração nos Territórios Ocupados.
Ao longo do profundamente defeituoso processo de Oslo, muitos funcionários eleitos agiram além do mandato dado pelos eleitores. Esses assuntos chegaram a um ponto crucial depois da última série de ataques e assédios israelenses. Com grande parte de Naplusa, Belém e Ramalah em ruínas, os palestinos começam a se perguntar como se permitiu que isto acontecesse. Onde estava a proteção? As coisas podem voltar aos seus lugares? A exortação a favor de reformas é mais urgente do que nunca. Refazer realmente o sistema político e não limitar-se a remodelar a superfície é essencial para fechar a brecha em matéria de confiança existente entre os palestinos e seus dirigentes.
Tal reforma também é necessária para solidificar o apoio internacional e para tornar mais eficientes os mecanismos administrativos da Autoridade Nacional Palestina (ANP), a fim de enfrentar os desafios surgidos pela ocupação em curso. A reforma não será fácil. A realização de mudanças constitucionais em meio a uma guerra ou depois da maciça destruição física imposta pelos militares israelenses deve enfrentar obstáculos muito difíceis. Embora a vontade do palestino médio não tenha diminuído, a infra-estrutura da ANP está em ruínas. O Banco Mundial estima, de maneira conservadora, que o prejuízo das recentes incursões israelenses na Cisjordânia chega a US$ 361 milhões. Esses números representam simples sombras em relação ao sofrimento total e à perda de vidas.
A realização imediata de novas eleições presidenciais, legislativas e municipais implicará registrar eleitoralmente, segundo se estima, 1,3 milhão de pessoas. Todas as formas de mau governo e de abuso de autoridade ou de mau uso de fundos públicos devem ser eliminadas e é necessário colocar em marcha novos controles para garantir que todos os fundos sejam usados de acordo com a lei orçamentária.
A convocação para que sejam feitas reformas políticas na Palestina cabe somente ao povo palestino e merece um forte ceticismo quando provém do exterior. Na boca do governo israelense, esse apelo é tão falso quanto inspirado em sua própria conveniência. A intenção de Israel é a de apropriar-se de velhas frustrações populares existentes entre os cidadãos para solapar a credibilidade de demandas políticas palestinas de maior alcance.
Curiosamente, a Agência Central de Inteligência (CIA) converteu-se no principal intermediário institucional e num fator determinante da política diplomática dos Estados Unidos. Os palestinos se perguntam se a pressão da CIA, na realidade, não viciará mais do que ajudará nas tentativas de aumentar a transparência e cultivar o respeito pelos direitos humanos. (O autor, Hanan Ashrawi, é membro do Conselho Legislativo Palestino e Secretária-Geral da Iniciativa Palestina para o Diálogo Global e a Democracia)