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Reflexões na hora amarga - Grandes e deliberadas mentiras


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Nas “Reflexões” anteriores, sob o título “Os Calabares”, procuramos oferecer à consideração da inteligência dos que nos honram com a sua leitura, o quanto se pode, menos informar do que desinformar a opinião pública, enganando-a e mistificando-a, de maneira deliberada, em matérias por vezes da maior importância e gravidade. E demos exemplos, entre os quais o da presença, cada vez mais ostensiva e desrespeitosa de “marqueteiros políticos”, cuja especialidade consiste, precisamente em, com técnicas por vezes refinadas e, até, subliminares, induzir a erro, por exemplo, os eleitores acerca dos candidatos que se apresentam postulando-lhes os votos.

Hoje, queremos oferecer à análise dos que nos lêem, a maneira desembaraçada, para não dizer, despudorada, com que as autoridades constituídas se entregam à prática deliberada do engodo. Por exemplo, todos sabemos o quanto tem sido trombeteada a obrigatoriedade do equilíbrio orçamentário e da assim chamada, “responsabilidade fiscal”. Tudo, é claro, sob a égide e a batuta desse grande instrumento do poder mundial, hoje já quase ostensiva e oficialmente existente, denominado FMI. FMI que, por onde conseguiu impor as suas recomendações, ou ordens, só tem espalhado a miséria e o desemprego, essa desalmada forma de violência, inaceitável e injusta.

Claro que o leitor sabe que o motivo ou pretexto alegado em tal receituário é sempre a necessidade de eliminar o fantasma da inflação, cujo exorcismo impõe, exatamente, o “equilíbrio orçamentário” e a “responsabilidade fiscal”, consistente em, não importa o preço a pagar, “não gastar mais do que se arrecada” - o que parece razoável. Uma coisa, porém, é parecer razoável; e outra, muito distinta, é ser possível, sobretudo em grandes e complexas sociedades, como é o nosso caso. O governo atual, agora, sabe-o muito bem. Entretanto, como está subordinado ao poder mundial e ao FMI, usa do seguinte artifício para iludir a opinião da grande maioria das pessoas: nas épocas adequadas anuncia, quanto ao desempenho da execução orçamentária, a existência de ausência de “déficit” e até a presença de “superavit”. Apenas, o tal “superavit” vem adjetivando como “primário”.

E, estamos seguros, muitíssimas pessoas não sabem exatamente o significado do adjetivo, usado precisamente para que nem todos se apercebam da realidade. E esta é a seguinte: o governo se abstém de emitir dinheiro, para que tal emissão, aumentando o meio circulante, estimule a alta de preços; ou seja, o surgimento do fantasma a ser exorcizado. Não emite dinheiro, mas vem emitindo títulos da dívida pública, e o vem fazendo hemorrágicamente, já atingindo a dívida interna a fantástica cifra de R$ 643 bilhões! Caso fosse incluído apenas o montante de juros da referida dívida, e em lugar de equilíbrio ou de “superavit” teríamos, na verdade, tremendo “déficit”. Trata-se, como vê o leitor, de um truque, de um “empurrar com a barriga” que, óbviamente, não pode ser levado a cabo “ad infinitum”. E, note o leitor, não estamos falando da dívida externa e do seu respectivo “serviço”. Por tudo isso, e muito mais, é que, no início do “plano real”, anunciavam-se R$ 0,83 como correspondentes a 1 dólar, que hoje se situa acima de R$ 2,5! A inflação, apenas aparentemente inexistente ou muito baixa, na verdade manifesta-se em termos da miséria crescente do nosso povo, e da estagnação do nosso progresso.

E ainda se ousa dizer que, ou as coisas continuam como estão ou sobrevirá o caos. Entendemos nós, que o caos poderá sobrevir na ausência de um surto de nacionalismo, capaz de devolver o Brasil aos brasileiros. Isto sim. (Jorge Boaventura - Home-page: www.jorgeboaventura.jor.brE-mail: brasil@jorgeboaventura.jor.br)

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