Regional

Cidade foi dividida pela política

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 4 min

Iacanga - Ao ouvir relatos da vida política de Iacanga é fácil notar uma polarização na cidade. A exemplo do que acontece nos Estados Unidos, e também em outros países, cada voto é disputado com unhas e dentes por apenas dois grupos políticos. Enquanto os americanos se dividem entre Republicanos e Democratas, em Iacanga a briga fica entre “aroeiras” e “pica-paus”.

De acordo com o testemunho de políticos locais, essa nominação teria sido usada por um vereador em 1988, durante a campanha eleitoral.

Naquela época, o atual prefeito Durvalino Afonso Ribeiro (PFL) disputava o comando da cidade com o candidato Eduardo Garcia dos Santos. Procurando mostrar força diante dos adversários, o candidato a vereador Benedito Aparecido teria dito em palanque que o grupo político no qual ele e Santos estavam inseridos era “forte como uma ‘aroeira’, onde ‘pica-pau’ não fura”. Aparecido fazia referência a uma espécie de árvore, cuja madeira é dura demais para ceder ao bico do pica-pau.

A comparação agradou a platéia e, desde então, Iacanga incorporou a fauna e a flora brasileira em seu meio político.

Santos venceu a eleição daquele ano e colocou os “aroeiras” no comando da cidade, enquanto os “pica-paus” afiavam seus bicos para novas tentativas.

Em 1992, houve nova eleição e os “aroeiras” mostraram mais uma vez o quanto eram fortes e resistentes. Desta vez, Durvalino foi derrotado pelo candidato a prefeito José Davi Gonçalves.

Durante os quatro anos seguintes, as brigas políticas em Iacanga diminuíram de intensidade. Os “pica-paus” saíram de cena, temporariamente, para voltar com ânimo redobrado na eleição de 1996.

Durvalino, o incansável, seria novamente o “pica-pau-mor”, aquele que provaria que a “aroeira”, enfim, não era assim tão resistente. Tendo agora como seu principal opositor o candidato Ismael Boiani, Durvalino vence a eleição e assume o comando da cidade.

A partir daí, os ânimos voltam a ficar exaltados e como rege a lei da física ‘toda ação gera uma reação’. Logo em seu discurso de posse, Durvalino teria sido um tanto contundente nas suas palavras e algumas pessoas acabaram se ofendendo.

No primeiro dia de trabalho, o prefeito despediu cerca de 70 funcionários e anulou dois concursos feitos pela gestão anterior, usando como justificativa a necessidade de diminuir despesas com a folha de pagamento.

No meio dos “aroeiras”, a atitude do prefeito foi encarada como um ato político. Segundo eles, praticamente todos os demitidos haviam supostamente votado em Boiani.

“Isso gerou um mal-estar na cidade e de lá para cá não existe meio de conciliação. O prefeito toma atitudes que só prejudica o lado oposto”, acusou o vereador Carlos Francisco Abdala (PPB), 55 anos, atual presidente da câmara e um “aroeira” que já foi “pica-pau”.

“Ele (Durvalino) nunca tomou uma atitude contra quem votou nele”, continuou. “Na cidade, por ela ser pequena, é fácil saber quem é de um lado ou do outro”, afirmou Abdala.

Segundo informou o prefeito, quando ele assumiu a prefeitura, em janeiro de 1997, ele não tinha mais do que 5% de eleitores lá dentro. â€œÉ claro que dispensei aqueles que não votaram em mim. Eles eram a maioria”, argumentou. “Tem funcionários que eu sei que votaram contra e estão comigo até hoje. É uma questão de competência”, disse.

De acordo com Abdala, hoje há divisões em todos os setores da comunidade por conta da política. “A gente espera que isso acabe um dia, mas parece difícil.”

Para acabar com as constantes brigas e discussões dentro da Câmara, no começo deste ano, Abdala decidiu instalar um circuito interno de câmeras de vídeo. Desde então, todas as sessões passaram a ser filmadas e isso acabou inibindo algumas manifestações mais exaltadas.

“A situação mudou e voltamos a ter tranqüilidade e um entendimento melhor”, comemora o vereador.

‘Impregnada na vida social’

Iacanga - O vereador Cláudio Roberto Dariva (PMDB), 35 anos, outro “aroeira”, é um dos mais empenhados na luta para acabar com a ‘animosidade’ reinante no meio político local.

“Essa briga deixou o campo político e impregnou na vida social da cidade. Hoje, têm pessoas que deixam de ir a uma festa de casamento ou de aniversário e até mesmo em velório porque fulano vai estar lá”, contou ele.

E os exemplos continuam: “Uma das coisas que está mais em evidência é a briga entre irmãos e vizinhos, que não conversam entre si por causa de divergências políticas”, disse Dariva.

Apesar de seu esforço na Câmara para apaziguar as duas alas, o vereador mostra-se cético quanto a uma solução a curto prazo. “Acho que vai demorar muito tempo para que essa briga acabe. É preciso bom senso de todos, não só dos políticos.”

Na opinião dele, o que alimenta o ressentimento entre os moradores é a perseguição política. Quanto mais uma fatia da população se sente prejudicada mais cresce o desejo de vingança. â€œÉ como uma fogueira, quanto mais lenha mais fogo”, exemplificou Dariva.

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