Iacanga - Ao ouvir relatos da vida política de Iacanga é fácil notar uma polarização na cidade. A exemplo do que acontece nos Estados Unidos, e também em outros países, cada voto é disputado com unhas e dentes por apenas dois grupos políticos. Enquanto os americanos se dividem entre Republicanos e Democratas, em Iacanga a briga fica entre “aroeiras†e “pica-pausâ€.
De acordo com o testemunho de políticos locais, essa nominação teria sido usada por um vereador em 1988, durante a campanha eleitoral.
Naquela época, o atual prefeito Durvalino Afonso Ribeiro (PFL) disputava o comando da cidade com o candidato Eduardo Garcia dos Santos. Procurando mostrar força diante dos adversários, o candidato a vereador Benedito Aparecido teria dito em palanque que o grupo político no qual ele e Santos estavam inseridos era “forte como uma ‘aroeira’, onde ‘pica-pau’ não furaâ€. Aparecido fazia referência a uma espécie de árvore, cuja madeira é dura demais para ceder ao bico do pica-pau.
A comparação agradou a platéia e, desde então, Iacanga incorporou a fauna e a flora brasileira em seu meio político.
Santos venceu a eleição daquele ano e colocou os “aroeiras†no comando da cidade, enquanto os “pica-paus†afiavam seus bicos para novas tentativas.
Em 1992, houve nova eleição e os “aroeiras†mostraram mais uma vez o quanto eram fortes e resistentes. Desta vez, Durvalino foi derrotado pelo candidato a prefeito José Davi Gonçalves.
Durante os quatro anos seguintes, as brigas políticas em Iacanga diminuíram de intensidade. Os “pica-paus†saíram de cena, temporariamente, para voltar com ânimo redobrado na eleição de 1996.
Durvalino, o incansável, seria novamente o “pica-pau-morâ€, aquele que provaria que a “aroeiraâ€, enfim, não era assim tão resistente. Tendo agora como seu principal opositor o candidato Ismael Boiani, Durvalino vence a eleição e assume o comando da cidade.
A partir daí, os ânimos voltam a ficar exaltados e como rege a lei da física ‘toda ação gera uma reação’. Logo em seu discurso de posse, Durvalino teria sido um tanto contundente nas suas palavras e algumas pessoas acabaram se ofendendo.
No primeiro dia de trabalho, o prefeito despediu cerca de 70 funcionários e anulou dois concursos feitos pela gestão anterior, usando como justificativa a necessidade de diminuir despesas com a folha de pagamento.
No meio dos “aroeirasâ€, a atitude do prefeito foi encarada como um ato político. Segundo eles, praticamente todos os demitidos haviam supostamente votado em Boiani.
“Isso gerou um mal-estar na cidade e de lá para cá não existe meio de conciliação. O prefeito toma atitudes que só prejudica o lado opostoâ€, acusou o vereador Carlos Francisco Abdala (PPB), 55 anos, atual presidente da câmara e um “aroeira†que já foi “pica-pauâ€.
“Ele (Durvalino) nunca tomou uma atitude contra quem votou neleâ€, continuou. “Na cidade, por ela ser pequena, é fácil saber quem é de um lado ou do outroâ€, afirmou Abdala.
Segundo informou o prefeito, quando ele assumiu a prefeitura, em janeiro de 1997, ele não tinha mais do que 5% de eleitores lá dentro. â€œÉ claro que dispensei aqueles que não votaram em mim. Eles eram a maioriaâ€, argumentou. “Tem funcionários que eu sei que votaram contra e estão comigo até hoje. É uma questão de competênciaâ€, disse.
De acordo com Abdala, hoje há divisões em todos os setores da comunidade por conta da política. “A gente espera que isso acabe um dia, mas parece difícil.â€
Para acabar com as constantes brigas e discussões dentro da Câmara, no começo deste ano, Abdala decidiu instalar um circuito interno de câmeras de vídeo. Desde então, todas as sessões passaram a ser filmadas e isso acabou inibindo algumas manifestações mais exaltadas.
“A situação mudou e voltamos a ter tranqüilidade e um entendimento melhorâ€, comemora o vereador.
‘Impregnada na vida social’
Iacanga - O vereador Cláudio Roberto Dariva (PMDB), 35 anos, outro “aroeiraâ€, é um dos mais empenhados na luta para acabar com a ‘animosidade’ reinante no meio político local.
“Essa briga deixou o campo político e impregnou na vida social da cidade. Hoje, têm pessoas que deixam de ir a uma festa de casamento ou de aniversário e até mesmo em velório porque fulano vai estar láâ€, contou ele.
E os exemplos continuam: “Uma das coisas que está mais em evidência é a briga entre irmãos e vizinhos, que não conversam entre si por causa de divergências políticasâ€, disse Dariva.
Apesar de seu esforço na Câmara para apaziguar as duas alas, o vereador mostra-se cético quanto a uma solução a curto prazo. “Acho que vai demorar muito tempo para que essa briga acabe. É preciso bom senso de todos, não só dos políticos.â€
Na opinião dele, o que alimenta o ressentimento entre os moradores é a perseguição política. Quanto mais uma fatia da população se sente prejudicada mais cresce o desejo de vingança. â€œÉ como uma fogueira, quanto mais lenha mais fogoâ€, exemplificou Dariva.