Medo. Uma palavra pequena que causa tanto horror nas pessoas. Medo de inseto, de escuro, de altura, de avião, de chuva, enfim, medo, pânico, pavor. Mas por que será que algo que causa tanto espanto em uma pessoa faz com que uma outra ria da situação, sem sentir absolutamente nada? Quem explica isso são os profissionais que lidam com essas situações e sabem exatamente quais são as causas dessas fobias.
De acordo com o psiquiatra Demétrio Romão Torres e a psicóloga Adriana Bei Forelli Martins, há algumas explicações. O medo inato, ou seja, aquele que nasce com a pessoa, é fator de proteção. Pode ocorrer o medo devido a algum trauma que a pessoa sofreu em alguma época da vida ou então pode ser, ainda, uma predisposição genética. Os medos irreais, irracionais, que fogem do receio normal, são chamados de fobias e precisam ser tratadas porque podem interferir no dia-a-dia das pessoas que, muitas vezes, são excluídas da sociedade.
As pessoas, muitas vezes, não controlam suas ansiedades e extrapolam, agindo de maneira estranha. Gritos, disparos em corridas, choro excessivo e desespero são algumas reações que se pode ver quando um fóbico passa por uma “situação de riscoâ€. O problema é que o perigo só existe para essa pessoa, então ela se torna motivo de chacota. A reportagem conversou com algumas pessoas que têm fobias irreais, mas que não quiseram expor suas experiências, mas pode-se afirmar que todos os entrevistados já passaram por alguma situação constrangedora devido ao medo que sentem. Mas vale lembrar que, mesmo passando por constrangimentos, nenhuma delas diz se poupar e se calar diante de algo que lhes pareça perigoso.
A psicóloga Adriana explica que as pessoas muito perfeccionistas, que não aceitam errar, que não aceitam estar em situações de risco, estão propensas a sentirem mais medo. “Isso é personalidade, se forma com a pessoa e ela vai ser mais cuidadosa com tudoâ€, diz.
A psicóloga diz que o medo por um trauma, por exemplo, pode ser um receio comum, mas pode ser exacerbado, exagerado e, portanto, transformar-se me fobia. Uma criança que um dia se assustou com um inseto ou com um animal, por exemplo, pode nunca mais conseguir chegar perto desse ser vivo que a amedronta tanto. "Os pais, às vezes, têm uma certa influência nisso, porque assustam as crianças com histórias de bicho-papão embaixo da cama ou de monstros no escuro."
De acordo com o psiquiatra Torres, há três tipos de fobias. A agorafobia, que ocorre mais em mulher (em cerca de oito mulheres para cada homem) é o medo de espaços públicos. A pessoa não sai às ruas porque pensa que pode acontecer algo ruim. É uma ansiedade muito grande, incontrolável, a pessoa tem crises de pânico. As fobias específicas, que são aquelas que se referem a algo como uma barata, avião, altura, sangue, algum animal, escuro. As pessoas evitam entrar em contato com aquilo que têm pavor, não podem nem ouvir falar sobre o assunto que já se sentem ansiosas. Também é mais comum na mulher. O terceiro item diz respeito ao transtorno fóbico social. Esse atinge tanto homens quanto mulheres. Normalmente, começa em idade precoce e é confundido com timidez. As pessoas, geralmente, não procuram tratamento. "É normal que os portadores desse transtorno, evitem situações em que tenham que se expor", explica Torres.
Para todas as fobias, é indicado o tratamento em conjunto do psicólogo com o psiquiatra. A pessoa deve fazer terapias e controlar as crises com medicamentos.
Adriana explica que, quando o medo ainda não está exacerbado, a terapia pode ser uma alternativa muito positiva. Com um trabalho gradativo, a pessoa vai aprendendo a conviver com aquele receio, sem que isso interfira na sua vida. Mas quando o medo se torna fobia, pavor, o ideal é associar as terapias com um tratamento medicamentoso, sempre com a orientação de um médico psiquiatra.
Os sintomas do medo são sudorese, ansiedade, palpitações, taquicardia, pelos ouriçados, diarréia, entre outros, como mãos frias. Cerca de 45% da população passa por algum transtorno fóbico no decorrer da vida e de 20% a 30% das pessoas têm transtornos de ansiedade, de acordo com Torres. O problema, explica ele, é que as pessoas não procuram tratamento ou, quando procuram, buscam outras especialidades. Quando sentem taquicardia, por exemplo, procuram um cardiologista, mas não observam que aquele sintoma está ligado à fobia.
Adriana concorda com Torres e diz que os pais devem observar seus filhos. “Ter medo de cachorro, por exemplo, pode ser normal, mas os pais devem observar que medo é esse. Se está fora do normal, pode ser um sinal de fobia, portanto, há que procurar um tratamento específicoâ€, diz.
Ela conta que a pessoa pode nunca deixar de ter medo daquilo que a apavora, mas, certamente, aprenderá a conviver com esse problema. “Eu tive um paciente que tinha pânico de elevador. Ele trabalhava no décimo andar de um prédio e só usava as escadas. Fizemos o tratamento, ele ainda tem medo, mas sabe que pode enfrentar esse receio, então ele já utiliza o elevadorâ€, relata.
Esse é o objetivo do tratamento das fobias, fazer com que a pessoas consiga conviver com seu problema, enfrente seu medo, mesmo que ela continue com um certo receio.
Pavor de borboleta
O advogado Giovani Castilho Hilário, 35 anos, 1,80 metro, diz ter pavor de borboletas, inclusive daquelas coloridas que a maioria das pessoas acha lindas. “Sou capaz de me atirar de um prédio para não ter que enfrentar umaâ€, diz.
Só de conversar sobre o assunto, Hilário estava arrepiado. Ele conta que já passou por várias situações embaraçosas por conta de seu pavor, mas não liga. “Se vejo uma borboleta, saio correndo, não interessa onde estou ou com quem estouâ€, afirma.
Giovani Hilário diz que fica gelado ao ver um inseto desses, sente o coração disparado e a única coisa que consegue fazer é ter forças nas pernas para sair correndo. “As pessoas riem, acham graça, mas isso é muito sério. Enquanto eu não vejo a borboleta morta, esmagada, não sossegoâ€, diz.
Ele explica que quando sua mãe estava grávida, uma borboleta pousou na sua barriga. Quando ela percebeu, espantou o inseto e, nesse momento, sentiu o bebê se mexer. “Não sei se tem alguma relação, mas minha mãe conta essa história.â€
Hilário diz que ficou até um “expert†em borboletas. “Nessa época do ano, elas aparecem mais. As borboletas surgem quando o clima está úmido, quando faz um pouco de frio. No calor, elas somemâ€, explica.
Ele diz sentir quando uma borboleta está por perto. “Não é medo, é pavor, parece que eu sinto se há alguma por perto, já fico de olhoâ€, conta. “Meu filho ou minha esposa são os que têm coragem de matar.â€
Uma vez uma pessoa mostrou uma revista a Hilário com uma foto de uma borboleta “enormeâ€, de acordo com ele. “Quando peguei na revista já fiquei geladoâ€, conta. Se ele sabe que tem uma borboleta dentro de casa e não tem ninguém para matar, ele sai e tranca a borboleta lá até alguém chegar e matar para depois ele voltar para casa. Essa é uma fobia específica, de acordo com o médico psiquiatra Demétrio Romão Torres.