Sinônimo de elegância, os saltos altos estão ganhando mais centímetros ano após ano. Atualmente, a maioria dos sapatos expostos em vitrines ostenta entre sete e dez centímetros. São acessórios bonitos, mas que sobrecarregam a estrutura músculo-esquelética, causam dores e aumentam os riscos de acidentes.
“Ao levantar o calcanhar, o salto alto muda o ponto de equilíbrio do corpo e obriga o indivíduo a adotar uma nova postura. Para isso, ele lança mão de músculos que geralmente não são tão usados para fazer força contrária à do salto e sobrecarrega as estruturas físicasâ€, explica o ortopedista Aliomar Ferri Amaral.
A primeira conseqüência disso são as dores, que acometem, principalmente, a coluna, joelhos, quadris, tornozelos, pés e panturrilha. Em situações simples, basta tirar o salto que o incômodo desaparece.
“Mas quando o uso de sapatos altos é prolongado e regular, a dor pode persistir mesmo depois que a pessoa tira o salto, porque houve uma mudança de apoio da própria articulação. Como há peso excessivo numa área pequena desta articulação, pode haver um desgaste do local a médio prazo, exigindo tratamento específicoâ€, comenta o médico.
Segundo ele, pessoas que já têm algum problema de coluna são as que mais sofrem. Isso porque a estrutura óssea já está fora do eixo - o encaixe das vértebras tem desvios laterais e rotacionais. O salto projeta o corpo para a frente e na tentativa de compensar o desequilíbrio, a musculatura se contrai e comprime a coluna.
Acidentes
“Há pouco tempo, no Japão, uma mulher morreu depois de cair do salto. Ela usava um sapato com 35 centímetros de altura. Perdeu o equilíbrio, caiu, bateu a cabeça e teve uma fratura de crânio. Parece brincadeira, mas aconteceu mesmoâ€, ressalta Amaral.
Ele afirma que este é um caso extremo, mas que os acidentes com estes acessórios de beleza são muito comuns, variando desde um estiramento muscular até fraturas e rompimento de tendões. Uma pequena mudança no apoio do calcanhar é o suficiente para causar um dano físico.
Neste sentido, os saltos plataforma são os principais vilões. O ortopedista explica que eles elevam não só o calcanhar, mas toda a base dos pés. Quando o salto está só no calcanhar e a pessoa mantém a parte anterior do pé no nível do chão, ela consegue controlar mais facilmente o equilíbrio.
Além disso, os saltos plataforma são uma base única e rígida sob toda a extensão do sapato. Quando a pessoa desequilibra, o salto vira para os lados. “As tiras da sandália seguram os pés, funcionando como verdadeiras alavancas. Isso pode causar rompimentos, levando à necessidade de cirurgias para se refazer toda a estrutura ligamentar do tornozelo. Algumas vezes, até a parte óssea precisa ser reconstruídaâ€, informa.
Moderação
Amaral ressalta que sapatos altos devem ser usados com sabedoria. No dia-a-dia, o ideal, segundo ele, são saltos com três a quatro centímetros, que não sobrecarreguem a ação fisiológica dos pés.
“Há situações, inclusive, em que nós indicamos o uso do salto baixo, como para quem tem esporões. O salto, neste caso, reduz a tensão da musculatura da panturrilha, do calcanhar e dos tendões. Conseqüentemente, não ocorre a calcificação (esporões)â€, esclarece.
Já os saltos com mais de cinco centímetros devem ser reservados para festas e ocasiões esporádicas. “Mesmo as pessoas que passam a maior parte do tempo sentadas no trabalho. Elas acabam levantando para ir ao banheiro, tomar água, respirar novos ares. Esse pouco tempo andando é o suficiente para gerar um acidenteâ€, reitera.
Exagero prejudica crescimento infantil
De acordo com o ortopedista Aliomar Ferri Amaral, o uso de saltos por crianças e adolescentes deve ser restrito às ocasiões mais solenes. O uso regular de sapatos altos no dia-a-dia sobrecarrega a estrutura física e pode prejudicar o crescimento, causando malformações ósseas e outros danos importantes.
O médico defende que colocar um saltinho de dois a três centímetros numa criança de cinco anos ou mais para ir a uma festinha é válido. Depois de algum tempo, ela mesmo vai pedir para tirar os sapatos e ficar descalça.
“A não ser que a criança já tenha um problema de coluna ou de joelho pré-existente. Aí, o salto vai desencadear dor e má postura. Se ela se queixar, os pais devem procurar um ortopedista rapidamente para fechar o diagnóstico. Havendo uma patologia de base, ela é logo tratada, sem grandes conseqüênciasâ€, conclui.