Até abril do próximo ano, jogadores de futebol que treinam em equipes de base de grandes clubes poderão contar com uma nova técnica para corrigir os problemas de finalização durante uma partida.
A técnica está sendo pesquisada por meio do projeto “Estudo biomecânico dos padrões cinemáticos do chute no futebolâ€, desenvolvido no câmpus de Rio Claro da Universidade Estadual Paulista (Unesp).
A partir do resultado do trabalho, membros da comissão técnica de times interessados poderão ensinar e corrigir com mais precisão a “arte†do arremesso com o pé, muitas vezes falha até para jogadores profissionais.
“A idéia é transformar o padrão de uma pessoa que nunca chutou uma bola com um padrão ótimo, o que contribuiria, num segundo momento, para a formação de novos jogadoresâ€, explica o professor e atual chefe do Departamento de Educação Física do Instituto de Biociências, Sergio Augusto Cunha, que coordena a pesquisa.
Além dele, quatro alunos da pós-graduação e um da graduação estão empenhados no trabalho detectando como os jogadores posicionam seus membros inferiores - coxa, perna e pé - no momento do arremesso da bola.
Para delimitar o estudo, que é financiando pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), apenas dois tipos de arremessos com o pé estão sendo avaliados neste momento.
Definindo objeto
Os chutes podem ser classificados em dois grupos: os de bola parada e aqueles registrados em movimento. Numa partida de futebol eles são realizados em situações diversas do jogo.
Esse projeto se propõe a estudar apenas o primeiro caso, provocados normalmente em cobranças de pênalti, falta ou escanteio.
Para pesquisar detalhadamente o objeto definindo, a equipe coordenada pelo professor Cunha ainda decidiu tomar para análise a região do pé com que o jogador golepeia a bola.
Como a maior parte dos trabalhos encontrados em literatura concentra-se em apenas um único tipo de chute - o realizado com o peito do pé, a bola parada e executado com força máxima -, o estudo optou por aumentar o campo de análise.
Além do arremesso tradicional, os pesquisadores também estão estudando aquele batido com precisão, disparado com a parte interna da chuteira.
Como são os tipos de chutes mais freqüentes numa partida, é possível ilustrá-los com jogadas acompanhadas na primeira fase da Copa do Mundo.
O volante e capitão da seleção da Inglaterra, David Beckham, por exemplo, marcou um gol contra a Argentina chutando com o peito do pé.
Já o atacante da seleção brasileira Ronaldinho Gaúcho freqüentemente confirma sua habilidade ao bater na bola com a parte interna da chuteira. Desta maneira, consegue mudar a trajetória da bola, resultando num chute mais lento e mais preciso.
Apesar do desempenho do craque e de outros jogadores, é inegável que a equipe de Felipão está avançando rumo ao penta sem dirimir por completo problemas de finalização.
Mesmo assim, a conclusão da pesquisa realizada pela Unesp não deve ser aproveitada pela seleção ou por grandes times nacionais. â€œÉ difícil aproveitar o projeto para trabalhar com profissionais porque utilizamos situações específicas de medição no decorrer do projeto e a gente sabe que estes profissionais não se submeteriam a qualquer tipo de protocolo experimentalâ€, acrescenta Cunha.
Técnica
Para descrever precisamente a seqüência dos chutes de maneira que a análise, quando concluída, possa ajudar os jogadores a aprimorar fundamentos importantes, Cunha está lançando mão de recursos de vídeo e de informática para analisar tais registros.
Com habilidade ou não no esporte, 80 voluntários de 11 a 21 anos foram filmados, simultaneamente por cinco câmeras digitais, chutando ao ar livre com a parte interna ou o com peito do pé.
Trajando calça preta colante, os garotos foram posicionados para golpear a bola com marcadores de isopor branco afixados nas articulações, sobre a peça do vestuário.
A variação de espaço dos sinalizadores foi registrada em vídeo para, posteriormente, ser estudada tridimensionalmente através de um software denominando Dvídeow.
Desenvolvido pelo Laboratório de Instrumentação para Biomecânica da Universidade de Campinas (Unicamp), o programa lança as coordenadas em três dimensões que, num outro momento, após uma filtragem de dados, projeta curvas matemáticas que serão, finalmente, classificadas.
“Pelo computador podemos perceber detalhadamente o comportamento de cada segmento corporal. Isso nos permite detectar características específicas do atleta durante o jogo. Detalhes que muitas vezes não podem ser percebidos pela simples observação visualâ€, conclui o pesquisador. O trabalho, uma vez utilizado como técnica, aliado a muito treino, pode resultar na revelação e preparação de novos craques.