Política

Para lingüista, o discurso político ainda é obsoleto

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 7 min

Até outubro, mês em que os brasileiros terão de escolher o novo comando do País, a mídia utilizada pelos marqueteiros vai despejar sobre todo território nacional uma infinidade de manifestações políticas divorciadas da dura realidade enfrentada pela maioria. Esta é a opinião do lingüista livre-docente pela Universidade de São Paulo (USP) e atual professor-adjunto da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Antônio Suárez Abreu.

Apesar da penosa previsão baseada em experiências pessoais, Abreu vive longe do ceticismo e recorre ao tripé educação, criatividade e sabedoria para acreditar em dias melhores. Especialista na arte de argumentar, ele tem fé na possibilidade de revolução rumo à qualidade de vida a partir desta técnica.

A alternativa apontada pelo professor ganhou tantos adeptos nos cursos realizados no Estado de São Paulo que o incentivou a escrever o livro “A Arte de Argumentar Gerenciando Razão e Emoção”. Em um ano e meio, a obra já está em sua quarta edição.

Para Abreu, quando alguém aprende a argumentar, melhora seus relacionamentos pessoais e profissionais, além de tornar-se capaz de identificar discursos enganosos que nos chegam a cada momento. A seguir, os principais trechos da entrevista concedida ao Jornal da Cidade.

JC - O estudo da argumentação é bastante antigo. De quando é? Antônio Suárez Abreu - O ponto marco da argumentação foi na Grécia Antiga, na época de 427 a. C., em Atenas. A primeira experiência no mundo em democracia foi em Atenas, quando as pessoas participavam de assembléias populares e tribunais. Foi então quando proliferou a arte da retórica.

JC - É possível uma pessoa identificar argumentos num outro discurso que, num segundo momento, não sejam benéficos a ela? Abreu - Nós temos sensores que nos permitem perceber se alguém está nos enganando.

JC - Como que eu percebo isso? Abreu - Olha, isso não é uma coisa racional, é uma coisa mais intuitiva. Há uma série de mensagens inconscientes que as pessoas dão.

JC - Mensagens corporais? Abreu - Mensagens corporais, como tom de voz. A mesma coisa acontece quando a pessoa é verdadeira.

JC - E no caso de discursos políticos, uma vez que parecem padronizados? Abreu - O problema é que o discurso político brasileiro está muito atrasado, na idade da pedra. Muitos marqueteiros aí estão utilizando formas, digamos, totalmente divorciada da realidade da gente.

JC - Por quê? Abreu - Porque eles põem em foco a questão da imagem. Todo mundo quer aparecer bonitinho, politicamente correto e simplesmente não pensam no auditório - grupo de pessoas - como um todo. O auditório muda, mas o discurso político não tem mudado.

JC - Numa campanha política a gente pode ter um comício, que é algo genérico, e um encontro na Fiesp, como aconteceu recentemente com a participação dos candidatos à Presidência... Abreu - O candidato tem que pensar o seguinte: ele não pode, em hipótese nenhuma, emitir uma opinião, defender uma tese, que ele não possa defender num auditório universal. Porque ele pode agradar aquele auditório, mas - a defesa - pode ter um efeito colateral negativo num outro auditório. Uma vez Luíza Erundina - ex-prefeita de São Paulo pelo PT, e atual deputada federal pelo PSB-, disse que, se fosse eleita, iria colocar sacolões em todos os bairros. No dia seguinte, ela já perdeu o voto dos feirantes.

JC - Então quer dizer que um político, no período de campanha, tem que ter opiniões genéricas para não contrariar segmentos... Abreu - Não genéricas, mas ele não pode ter uma opinião que entre em rota de colisão com outros segmentos. Ele não precisa ser genérico, mas precisa saber colocar o que pensa.

JC - O senhor acha que os marqueteiros hoje, quem definem o rumo das eleições, não estão se atentando para isso? Abreu - Alguns não têm se atentado. Também esquecem de pensar nos valores do outro. Num processo argumentativo, como é que você cria esta ponte de interesse, do bom relacionamento? Olhando para os valores do outro.

JC - Como assim? Abreu - Veja bem, no dia-a-dia, a gente fica preocupado com o que eu tenho a ganhar com a discussão. No processo argumentativo de persuasão, e persuasão é quando o outro faz alguma coisa que eu quero que ele faça, tem que pensar no que é importante para que o outro ganhe, depois eu penso no que eu vou ganhar.

JC - Mas e sob a ótica política? Imagino que um político, quando faz um discurso, vá se preocupar em dizer alguma coisa que convença o outro de que votar nele é o melhor. Para isso, ele cita as vantagens para outro. Não é assim? Abreu - Mas essa vantagem precisa ser baseada em realidade. Não posso chegar como político e prometer para todo mundo que vai haver pleno emprego no Brasil, um mês após eu ser eleito. Isso não existe. A promessa tem que ter uma coisa chamada verossimilhança.

JC - O que pode ser confundido com demagogia, por exemplo? Abreu - Isso, a falta de verossimilhança é demagogia.

JC - Excluindo opiniões pessoais, entre os quatro principais candidatos à Presidência: Lula, Serra, Garotinho e Ciro, na opinião do sr., qual deles argumenta melhor? Abreu - Ciro Gomes.

JC - Por quê? Ele é mais articulado? Abreu - Ele é mais articulado e sabe trabalhar com as chamadas teses de adesão inicial. Eu falo sobre isso no livro.

JC - O que são teses de adesão inicial? Abreu - Alguma coisa com a qual você concorda antes, para depois eu ir para uma idéia principal. Quando o ex- presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, durante a campanha eleitoral, perguntou para o povo se eles estavam melhores hoje do que há quatro anos, ele já sabia a resposta: era não. Então primeiro o povo concordou com ele, mas a tese principal era: vote em mim. Ele poderia ter iniciado a conversa dizendo: gente, vote em mim para presidente.

JC - Dentre os atuais candidatos brasileiros quem tem mais dificuldade em argumentar? Abreu - O Lula.

JC - Por quê? Abreu - Porque ele, embora tenha uma excelente assessoria, vai depender sempre de algum assessor que vai dizer para que ele diga isso agora, diga isso depois. Você veja, por exemplo, quando ele disse que precisa acabar com o Imposto de Renda para as pessoas que ganham o salário e aumentar até 50% na classe média. Isso aí pegou muito mal.

JC - Ele alegou que a imprensa não o entendeu bem... Abreu - O problema é que, às vezes, ele fala algumas coisas pensando em apenas um segmento da população. Neste caso, ele só pensou nas pessoas carentes, que de fato pagam um imposto de renda absurdo neste País, só que ele não pensou que existe uma classe média, formadora de opinião...

JC - Como a gente usa a emoção na argumentação sem torná-la piegas? Abreu - Pois é, tem muito político que ainda carrega criancinha no colo. É piegas. Mas isso comovia há uns 10, 15 anos. Agora não comove mais.

JC - Como usá-la então? Abreu - O primeiro passo é termos consciência de que somos seres emocionais. A escolha do curso universitário, por exemplo, é feita com emoção. As nossas emoções disparam em 12 milésimos de segundo. Hoje por exemplo, o povo está comemorando a vitória do Brasil, mas se você perguntar quanto caiu de dinheiro na conta bancária... nenhum tostão. São valores ligados à sensibilidade emoção. Eu preciso identificar os valores das pessoas para me aproximar do coração delas.

JC - O livro também trata do discurso de senso comum.... Abreu - Senso comum é um discurso que mantém a sociedade funcionando de acordo com o status quo vigente. Ele é histórico, localizado e muda de época por época.

JC - Dê um exemplo. Abreu - Se o Lula for eleito, nós vamos virar uma Argentina. Isso é besteira, mas é um discurso de senso comum.

JC - Como fazemos para nos tornar menos vulneráveis a discursos infundados? Abreu - A mudança que a gente tem que fazer tem que passar pela educação. As pessoas, mesmo que tenham uma educação específica em determinada área, não podem se restringir a ela, precisam ser mais holística, mas universal. Precisam aumentar seu nível de leitura. Defendo o tripe educação, criatividade e sabedoria.

Comentários

Comentários