Política

Projeto pede punição e proíbe venda de cerol

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 4 min

Está tramitando na Câmara Municipal de Bauru um projeto de lei protocolado anteontem, de autoria do vereador José Humberto Santana (PV), que, se aprovado, vai proibir em Bauru a comercialização e o uso de cerol (mistura de cola de madeira e vidro moído) ou de qualquer material cortante em linhas ou fios utilizados para empinar pipas.

A iniciativa parece chegar em boa hora. Conforme as férias de julho vão se aproximando, as ruas ganham um colorido especial com os papagaios, mas também tornam-se mais perigosas.

Embora a Polícia Militar (PM) e o Corpo de Bombeiros não saibam precisar números, várias pessoas perderam a vida ou se machucaram com gravidade através de cortes provocados por linhas carregadas de vidro picado. Infelizmente, muitas outras correm o mesmo risco.

De janeiro a maio deste ano, levantamento obtido junto à PM indica um aumento de 36%, em relação ao mesmo período do ano passado, na incidência de denúncias referentes ao uso de cerol. Em 2001, foram registradas 55 ocorrências e este ano a soma saltou para 75.

Em todo o ano passado, a quantidade chegou a 221, dado que preocupa policiais e autoridades. “A polícia fiscaliza sem ter lei. Conversei com alguns membros do comando da PM de Bauru, que consideram a lei muito bem-vinda, já que todo instrumento que facilite o trabalho de fiscalização é importante”, explica o vereador responsável pelo projeto.

Para amparar o trabalho policial, a proposta de Santana prevê apreensão dos objetos encontrados com cortante, além do pagamento de multa à administração municipal. Aos infratores das proibições será aplicada uma pena pecuniária de 50 UFIR’s, o que equivale a pouco mais de R$ 50,00. Quando a violação for praticada por menores, pais ou responsáveis assumem a responsabilidade.

Embora as crianças sejam os principais fabricantes de cerol, o projeto que chegou à Câmara também prevê a punição para estabelecimentos que vierem a ser flagrados vendendo o cortante. Neste caso, a multa pode chegar a R$ 1.200,00. “Quando um produto começa a ser muito utilizado, logo passa a ser comercializado. Portanto, fizemos um projeto prevendo a proibição de industrialização, comercialização, armazenamento e transporte”, justifica o vereador.

O projeto de lei n.º 169/02 ainda prevê a aplicação do montante arrecadado pela prefeitura com as multas. Parte será destinada ao Fundo Municipal de Assistência Social e a outra porção, na divulgação da lei, bem como em projetos educativos quanto ao uso indevido do cerol.

Entretanto, vale ressaltar que informações desta natureza devem vir de casa. É assim que pensa, por exemplo, Ismael Ferreira dos Santos, 38 anos, que castigou o filho de 8 anos surpreendido fabricando o cortante. “Coisa ruim as crianças aprendem rápido. Portanto, os pais precisam estar sempre atentos. Meu pequeno levou umas palmadas e ficou de castigo”, ensina.

O alcance da energia dos pais pode ser flagrado no dia-a-dia das crianças. Num grupo de cinco crianças apanhado de surpresa empinando rabiola na Vila Santa Luzia, duas garantiram não usar cerol por ter medo de represália dos pais. “Depois que me cortei, quando tinha 5 anos, minha mãe me proibiu de usar a cola com vidro. Se ela me pega, estou morto”, conta J.A.S, 11 anos.

Além dos pais, autoridades também provocam o temor da garotada. J.S.M, de 12 anos, ao avistar a equipe do Jornal da Cidade se aproximar enquanto empinava sua pipa, avisou logo de antemão que não usava o cortante. “Tia, você vai chamar a polícia ou o juiz?”, indagou.

Mais destemido, V.S.S, de apenas 9 anos, confirmou que gosta de “ganhar” papagaios através de linhas imbuídas de cola e poeira de vidro. Satisfeito com o know how adquirido nas ruas, foi até um terreno baldio para mostrar onde encontra matéria-prima para confeccionar o cerol. “Qualquer tipo de vidro serve, mas a cola tem de ser especial”, esnoba.

Rede Elétrica

O cerol não ameaça apenas as pessoas que circulam pelas ruas, mas também os cabos da rede elétrica, que podem ser rompidos através da força do cortante, alerta a assessoria de imprensa da Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL).

Enroscadas em postes, transformadores e cabos elétricos, o fio das rabiolas pode provocar curtos-circuitos, além de acionar as chaves e disjuntores para proteção de equipamentos, resultando na interrupção da distribuição de energia.

O ideal é que a brincadeira seja feita em lugares abertos, planos e a uma distância bastante segura dos cabos elétricos. Dados da PM indicam que a cautela não tem sido respeitada especialmente nos bairros Mary Dota, Núcleo Geisel, Bela Vista e São Geraldo.

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