Enquanto a bola da Copa do Mundo rola na Coréia, um grupo de sete garotos coreanos rola a bola aqui em Bauru e aprende a arte de jogar futebol. Eles estão há seis meses na cidade e treinam todos os dias, de manhã e à tarde, no centro de treinamento do Bauru Futebol Clube, comandado por Edilson Guimarães Barone, o Baroninho, lá no Jardim Europa.
Baroninho conta que quando eles chegaram ao Brasil não tinham futebol de qualidade e eram bem retraídos, até um pouco revoltados com a rigidez que os treinadores coreanos impõem aos atletas desde pequenos. “Eles têm a disciplina deles, que é muito mais dura que a nossa, e fica até difícil de adaptar, mas aos poucos eles estão se acostumando. A integração deles é muito boa, eles gostam dos brasileiros e os brasileiros gostam dos coreanos.â€
Ao entrarem para o time, Baroninho batiza os garotos com nomes de grandes craques do futebol que jogaram com ele no Palmeiras e no Flamengo. “Fica mais fácil para os meninos brasileiros chamarem os companheiros. Até os garotos coreanos acabam adotando os nomes entre eles e na escolaâ€, conta o técnico, que é considerado um pai de verdade pelos meninos.
Dessa maneira, estão em Bauru Adílio, Júnior, Zico, Nunes, Mendonça, Rosemiro e Marinho, que na verdade (preparem-se!) são Jung Won Mo, Kim Mun, Kim Jin Chel, Ji Young Sung, Kim Do Hyung, Lee Jung Doo e Kim Jun Hyung. Eles têm entre 13 e 16 anos e falam muito pouco a língua portuguesa. Os mais falantes são Adílio e Zico, que ajudam os amigos a se comunicarem.
Saudade de casa
Eles vão ficar um pouco mais de um ano em Bauru. Enquanto isso, matam a saudade da família pela Internet e por telefone, mas revelam que são tratados como filhos pelo técnico Barone e pela esposa Teresa. “Ela trata da gente como mãe. Quando alguém fica doente, ela vai ver à noite, toda hora, que nem mãe de verdade. Você pode escrever obrigado para eles no jornal?â€, pergunta o atacante Adílio querendo agradecer o tratamento carinhoso.
Zico, que tem 16 anos, também sente saudade da família, mas como é o mais falador da turma, já se adaptou ao Brasil. Seu maior objetivo é jogar. “Pretendo jogar como Zico, que lá é muito famoso.â€
Quando questionado sobre o que fazem quando não estão nos campos, na escola ou na academia, ele dispara: “a gente escuta música, lê livro, revista, usa a net e vai ao shopping, mas até agora, o mais legal no Brasil é o futebol.â€
Sobre os relacionamentos, ele faz questão de dizer que é fácil fazer amigos no Brasil, “o difícil é falar português (abre um sorriso tímido)â€.
Nunes aponta que na escola o conteúdo das matérias é mais fácil no Brasil, mas é difícil ter que usar o dicionário toda hora para entender o que a professora fala ou para fazer os trabalhos. “Eu olho meu amigo de classe, se ele escreve eu também escrevo.â€
Do outro lado
Tímido, o pequeno Mendonça diz que está sendo muito bom ter saído da Coréia para vir jogar no Brasil. "Não existe nada melhor do que o futebol brasileiro, aliás, existe sim: churrasco", comenta. Os amigos denunciam que ele é o mais comilão da turma.
A grama também exerce fascínio a Rosemiro, que não fala quase nada de português e ainda não pensa se vai jogar futebol para a vida toda. Talvez acabe sendo convencido pelo estilo de jogo e pela grama, a qual não pára um minuto de revolver enquanto conversa. Ele diz que os jogadores brasileiros fazem com que os coreanos aprendam melhor e a grama deixa a bola rolar.
Preocupado, Marinho tem 14 anos e acha que começou a jogar muito tarde, mas quer dar o máximo para recuperar o tempo perdido. “Só Barone é capaz de ajudar, ele ensina, eu consego.â€
Aliás, Baroninho é um ídolo dos meninos e está entre os jogadores preferidos dos coreaninhos, que também elegeram Ronaldo, Romário, Pelé e Zico. Só que na hora de torcer, cada dois atletas torcem para o Corinthians, Flamengo e São Paulo. Já o mascote do grupo, o pequeno Rosemiro, 13 anos, quer o sucesso do Bauru Futebol Clube.
Mas a maior lição que levam de Bauru é que no futebol se ganha e se perde, se adquire confiança, aprende a ser companheiro e ser determinado.
Sobre a Copa, os meninos não acreditavam que a Coréia chegasse aonde chegou. Estão torcendo pelo Brasil, mas se as duas equipes se enfrentarem... O que poderá acontecer? “A gente torce para o Brasil, se ele ganhar a gente fica feliz, se a Coréia ganhar a gente ficará feliz tambémâ€, ataca Adílio.
Como vieram parar aqui
Os garotos coreanos foram trazidos por um coreano apaixonado por futebol, que mora em São Paulo há 15 anos, que um dia, assistindo ao treinamento dado pelo técnico Baroninho, resolveu propor um intercâmbio com os jovens jogadores da Coréia. Aliás, Barone, em 1977, fez o gol que garantiu a vitória da seleção brasileira juvenil, na Coréia, sobre o time da casa. “Foi aí que minha paixão pela Coréia começou.â€
Cada jogador pode ficar no Brasil de seis meses a dois anos e são seus próprios pais que arcam com as despesas dos garotos para motivar os futuros craques. Agora eles são acompanhados por um técnico coreano que também veio aprender no Brasil.
Eles dizem que estão adorando a experiência de jogar no Brasil. Adílio, o artilheiro do grupo, diz que já perdeu a conta dos gols que fez no Brasil. Na semana que passou, fez um contra a equipe do Palmeiras, em São Paulo, e estava todo feliz.
Para ele, estar no Brasil é muito gratificante. “Lá na Coréia há poucos times, poucos clubes. Aqui todo lugar tem muitos times e campos com grama, lá é tudo de terra. Aqui é bem melhor. Os jogadores são amigos, o técnico ensina os fundamentos com calma. Lá, a gente tem um pouco de medo. Baroninho é um professor amigo e é um pai igual ao nosso.â€