Bairros

Poluição traz doenças e causa enchente

Rose Araujo
| Tempo de leitura: 4 min

Uma das conseqüências mais visíveis da poluição dos córregos e rios de Bauru pode ser observada nos bairros e favelas ribeirinhos. A população desses locais vive em meio ao lixo e à contaminação e não é raro aparecerem doenças em adultos e crianças.

A dona-de-casa Ivanilda Tobias, que mora em um barraco às margens do córrego Água da Ressaca, na favela do Parque das Nações, diz que seus três filhos vivem doentes. “As crianças aqui têm muitos problemas de saúde”, frisa.

Ela conta que eles sempre estão com a bronquite atacada, com pneumonia e verminoses. “Só o cheiro do córrego já incomoda bastante”, salienta.

Ivanilda diz que tenta evitar que os filhos brinquem na beira do córrego, mas admite que nem sempre isso é possível. “Não tem quem segure essa molecada. Eles não param e acabam andando descalços no esgoto e brincando com o lixo”, salienta.

A irmã dela, Ivone Tobias, que mora em um barraco vizinho, afirma que existe muita criança que nada na água contaminada. “Quando está calor, a meninada entra tudo no córrego para tomar banho e brincar”, destaca.

Ela conta que o filho de uma amiga que também mora na favela acabou ficando com várias feridas na perna depois de tomar banho no córrego. “Os machucados não saram nunca. Está uma coisa muito feia”, afirma.

Além disso, Ivone diz que as casas vivem infestadas por insetos, ratos e cobras. “Isso tem de sobra aqui.”

Claudineide Jucelino de Barros chegou há dez meses a Bauru, vinda de Alagoas. Em busca de emprego e de uma vida mais digna, ela acabou indo morar na favela Parque das Nações, nas margens do córrego. “Lá não tinha isso, não. A gente morava no sítio e não via tanta sujeira”, salienta.

Ela afirma que ficou assustada ao ver tanta poluição nas águas do riacho. “Eu tenho medo que meus filhos peguem alguma doença.”

A dona-de-casa é mãe de quatro crianças, com idades variando entre 4 e 11 anos, e diz que nem sempre consegue evitar o contato delas com a poluição. “Eu tento proibi-las de brincar no rio, mas a gente não consegue segurá-las”, salienta.

Claudineide diz ainda que muitas crianças retiram alimentos do brejo próximo ao rio. "Às vezes, elas encontram peixinhos no brejo e usam para comer", destaca.

Enchentes

O Água da Ressaca é um dos córregos que dá origem ao rio Bauru. Ele se forma em uma mina próximo à rodovia Bauru-Ipaussu e atravessa a Zona Sul da cidade. “À medida em que entra na área urbana, o córrego vai ficando poluído, tanto por esgoto, quanto por lixo”, destaca Álvaro de Brito, coordenador da Defesa Civil de Bauru.

De acordo com ele, a população é responsável por 50% da poluição dos rios da cidade. “A falta de tratamento do esgoto é um problema que cabe ao poder público, mas a população tem que colaborar, fazer a parte dela”, destaca.

Ele conta que muitas inundações ocorrem devido à quantidade de lixo que é depositada nos riachos e córregos. “As pessoas jogam tudo quanto é tipo de coisa nas águas. Material orgânico, a natureza se incumbe de dissolver, mas plástico e outros materiais ficam milhares de anos para serem absorvidos pela natureza”, enfatiza.

Brito ressalta que a poluição das águas não atinge somente quem vive na beira dos córregos, mas a cidade de forma geral. O entulho e o lixo obstroem as águas e provocam enchentes na época das chuvas. “A saída de esgoto do Jardim América, por exemplo, está completamente comprometida pelo lixo”, explica.

Dessa maneira, apenas o tratamento do esgoto não resolveria o problema da sujeira dos córregos e rios de Bauru. De acordo com Brito, é preciso que a população tome consciência do seu papel na conservação do meio ambiente. "A coleta de lixo em Bauru é muito eficiente. As pessoas não precisam jogar nos rios o que não precisam mais", enfatiza.

Danos à saúde

Os microorganismos e animais que estão presentes em locais poluídos podem causar diversos males à saúde. Por isso, quem vive nas áreas contaminadas ou consome alimentos cultivados próximos aos rios de Bauru pode apresentar uma série de doenças.

De acordo com o pediatra Felinto dos Santos Neto, diretor do Departamento de Urgências e Emergências da Secretaria Municipal de Saúde, o risco de se viver nas margens dos riachos de Bauru é muito grande para a saúde. “As pessoas que moram nessas condições estão expostas a muitos problemas de saúde”, frisa.

Entre eles, estão dermatites, micoses e verminoses, que podem ser adquiridas pelo contato direto com a água contaminada e com o solo.

Há também as doenças intestinais, causadas pela ingestão de alimentos cultivados na beira dos córregos.

Além desses problemas, a população está arriscada a contrair doenças mais graves, como leptospirose e hepatite, segundo o médico.

“Quem vive nos lugares poluídos dificilmente tem condições de se proteger. A única medida seria sair dessas águas contaminadas”, destaca.

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