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São Malan


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Poetas, felizmente, não são chegados a números e estatísticas. Em geral, desprezam a matemática e se deixam levar pela emoção, humor, talento e cultura. Não se tem notícia de que algum deles tenha arruinado a economia de seu país – e, por extensão, a auto-estima do povo. Quase sempre, acertam mais que os economistas. O que, a rigor, não significa grande coisa. Anos atrás, Mario Quintana escreveu: “As religiões cresceram entre os humildes porque aqueles que estavam por cima já se julgavam no paraíso”.

A se julgar pelos resultados do último censo do IBGE, realizado em 2000, e a se tomar como verdadeira a afirmação do poeta gaúcho, cresce entre nós o número daqueles que já se consideram no reino dos céus. Nada menos que 7,3% dos brasileiros se declararam sem religião. Nesse balaio, coabitam não-praticantes, agnósticos e ateus puro-sangue. Por ora, não se sabe a renda dessa turma. Mas tudo leva a crer, a exemplo do que ocorre nos Estados Unidos e na Europa, que parte dela esteja no topo da pirâmide.

É certo que a Igreja Católica vem, ano a ano, perdendo o número de fiéis. Muito embora o papa João Paulo II, ao longo de duas décadas, tenha com suas cajadadas mandado para o espaço os adeptos da teologia da libertação. Ao contrário do que ocorria há vinte anos, é raridade, nos dias de hoje, encontrar um padre de camiseta básica e estrelinha do PT no peito. No período, segundo um especialista, cerca de novecentas pessoas foram beatificadas e outras trezentas, canonizadas. Em suma: há beatos e santos para todos os gostos e causas. Nem assim a Igreja Católica ganhou novos adeptos, em termos percentuais. Ao contrário: perdeu.

Nos últimos vinte anos, viu-se também um crescimento vertiginoso de novas igrejas, na mesma proporção em que “bispos” e “bispas” fizeram fortuna e fama, em cima do desespero dos incautos.

Dois anos na história de um país é coisa pequena, insignificante. Mas é tempo suficiente para fazer com que o humor e a fé da população mudem da água para o vinho. Desnecessário lembrar que, de 2000 para cá, por conta da política econômica, as coisas pioraram um bocado. Os níveis de desemprego nunca foram tão altos. Quem está empregado ganha menos do que ganhava na virada do milênio. A inflação está sob controle, mas quem vai às compras básicas duvida dos índices oficiais. Dizem os especialistas que nunca estivemos tão próximos da Argentina como agora. Pode ser, pode não ser. Quem sabe? Os números não mentem, embora não se possa dizer o mesmo dos que têm a tarefa de divulgá-los.

Pelo andar da carruagem, é possível que São Malan & cia. façam pela fé muito mais que o papa e os “bispos” e “bispas” que nos prometem o paraíso já e agora. Não será estranho se daqui a dois anos, para usar uma expressão do mesmo Mário Quintana, nossos 7,3% de ímpios reforcem aos pesquisadores do IBGE sua descrença ampla, geral e irrestrita em Deus, embora, por via das dúvidas, “no meio do turbilhão, rezem sem fé”. (O autor, Orlando Silveira, é jornalista - e-mail: orlandosilveira@uol.com.br)

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