Na sessão de anteontem, a Câmara Municipal de Bauru autorizou o Executivo a permutar um imóvel de sua propriedade. A troca, aparentemente corriqueira, tem apelo social porque acata uma reivindicação antiga do Centro Espírita Amor e Caridade que, através da permissão, vai transferir a sede do Albergue Noturno para as proximidades do Terminal Rodoviário.
Segundo o presidente da entidade, Richard Simonetti, há muito tempo esta idéia é alimentada, mas ganhou força nos últimos dois anos. “O Albergue está atrapalhando o centro da cidade e decidimos transferi-lo, mas não achávamos um local adequadoâ€, explica.
A proposta, agora concretizada, era aproximar e tornar mais acessível para o migrante os serviços prestados pela instituição. Como os assistidos chegam e saem da cidade através do terminal rodoviário, o terreno disponível na quadra 6 da rua Inconfidência preenche as expectativas. “ Vamos iniciar uma campanha junto à comunidade, em especial aos empresários, para conseguir verba e construir o novo prédioâ€, informa Richard.
Ele ainda não sabe quanto em recursos deve angariar para readequar as estruturas do Centro de Triagem de Migrantes, do albergue e da Casa de Convivência, pois ainda não dispõe das medidas do novo imóvel e da sua respectiva planta. “A partir do momento da construção, se tudo der certo, acredito que em um ano e meio mudamos de endereçoâ€, diz otimista.
O presidente do Centro Espírita Amor e Caridade já contava com a aprovação do projeto, pois considera os legisladores de Bauru muito acessíveis aos trabalhos assistenciais. Na segunda-feira, o vereador José Humberto Santana (PV) chegou a elogiar o proprietário do terreno, Edmond Tobias e sua esposa, pela iniciativa.
O empreendimento agrada também os proprietários de imóveis da região onde o albergue funciona hoje. Eles se queixam de furtos e dos pedintes que se aglomeram no local.
O empresário Roberto Fornazari, que tem um escritório na mesma rua, prometeu bancar uma festa na data da transferência do albergue. Ele atribui aos assistidos os furtos registrados em seu estabelecimento. “O assédio destas pessoas também provoca constrangimentos para meus clientesâ€, alega.
Um pouco menos incomodado, um outro empresário, Márcio De Martino, também aprova a mudança. “A iniciativa é boa, mas temos de ter paciência com estas pessoasâ€, explica.
Foram justamente as reclamações desta natureza que provocaram a preocupação da presidência do Centro Espírita Amor e Caridade. Richard Simonetti garante que também se sentiria desconfortável se vivesse na região. “Ninguém gosta de ter um albergue na porta de casa. A vizinhança sempre reclama. Lá na rua Inconfidência o volume de reclamações deve ser menorâ€, analisa.
De fato, alguns moradores consultados nesta rua garantiram que a transferência do Albergue vai mudar a rotina da região, mas que a novidade não será rejeitada. Para Maria Aparecida Antonelli, os migrantes também precisam de um lugar acolhedor, por essa razão garante paciência com os novos vizinhos.
Já Ézia da Silva Marques sabe que será importunada com mais freqüência, mas acha que a segurança na região pode até melhorar com o Albergue. “Naquele terreno, duas moças foram abusadas sexualmente. Tomara que a construção saia logoâ€, diz.
Contudo, as opiniões favoráveis não são unânimes. Para Sônia Antonine Nunes, a entidade deve atender em qualquer lugar, menos na rua da casa dela. “Não quero perturbaçõesâ€, desaprova.
Apesar das divergências, todos reconhecem o trabalho realizado pelo Centro Espírita Amor e Caridade que, desde 1951, já atendeu 669.614 pessoas, o dobro da população de Bauru.