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Elas também têm história


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Tudo e todos têm sua história. Universalmente, têm-na o mundo e a humanidade. Individualmente, tiveram-na Adão, Eva e Jesus Cristo, assim como os homens e as mulheres de todos os tempos e, agora, os contemporâneos. Os animais não ficam à margem do contexto, cada qual na sua forma e nas suas cores. E as aves, ficariam de fora? Não, absolutamente, embora a história delas quase não seja conhecida e, já por isso, pouco falada. Do visor de nossa janela vemos, todas as manhãs, centenas delas. Vão daqui para ali, ora dançando, como bailarinas serenas, sobre alguns galhos dos frondosos ipês de nossa bela avenida, ora parecendo estar brincando de pega-pega, deslocando-se resolutamente umas atrás de outras. Algumas, denotando-se indiferentes com a nossa presença no reposteiro, aproximam-se da gente. Para agradecer nossa admiração por elas ou para nos cumprimentar? Não sabemos. Cairemos de susto se um dia abrirem o bico e nos surpreenderem cantando: “Sei que me esperavas desde cedo... Que eu te disseste hoje o meu canto solene. Sei que a única alma que possuo é a tua, mais amorosa que os cardumes do mar”, como afirma romanticamente inspirada poesia que conhecemos. A verdade é que as tais nos fazem lembrar que elas existem. E como existem, pois habitam a terra em cerca de 8.600 espécies, a maioria migradora, que constrói os seus ninhos ao norte do Equador. E, nas suas evoluções, lá nas alturas, ainda que pensem estar livres de inimigos, sem dúvida os têm, como sejam os aviões pelos quais muitas vezes são atropeladas, colhidas em altitudes de 330 a 600 metros. E inimigos têm também nos altíssimos arranha-céus, nos quais colidem irrefletidamente suas graciosas asas. Muitas delas, entretanto, conseguem escapar das armadilhas, pois atingem alturas que nenhum ser humano comum seria capaz de suportar sem o auxílio de máscaras de oxigênio, o que não acontece com elas. As conhecidas toutinegras asiáticas, exemplificando, atravessam os picos do Himalaia, de 6 mil metros de altitude, voando da Índia para seus pousos de reprodução na Sibéria. E os pequenos pássaros terrestres voam à noite e se alimentam de dia, enquanto a maior parte dos aquáticos e litorâneos faz vôos migratórios só durante o dia, o que lhes permite chegar mais rápido ao seus pousos de verão, no Ártico, na velocidade normal de 32 km/h. Enfim, as viagens dos bilhões de aves de arribação possuem importância vital para a humanidade, pois, ocupando as terras temperadas nortistas, durante o verão, contribuem de maneira decisiva para evitar que os insetos e roedores destruam a vida vegetal nos meses quentes, porquanto, quando as folhas das árvores começam a brotar trilhões de insetos depositam nelas os seus ovos, que então são providencialmente devorados pelos bandos de pássaros que transitam em demanda do Norte. E, aí, está a história delas, pois elas as têm mesmo - concordam? É a nossa opinião. (O autor, N. Serra, é o jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado)

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