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Pobres e ricos


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Em geral, acredita-se que o fenômeno conhecido como “globalização” ocorre, em grande parte, devido aos avanços em novas tecnologias e nas comunicações, ou através da determinação de grandes e agressivas corporações para expandir seus mercados. Os fatos mostram, entretanto, que a verdadeira força que impulsiona a liberalização financeira é formada pelos governos democráticos ocidentais. A força motora para suprimir todos os controles sobre o capital foi o crescente déficit dos EUA, que aumentou rapidamente nos anos 60 e 70, exacerbado pela guerra do Vietnã. Em lugar de fazer os ajustes estruturais necessários, os EUA tomaram dinheiro emprestado nos mercados de capitais.

Deste modo, desde os anos 60, o crescente déficit norte-americano foi a força dominante que conduziu à globalização financeira. Os norte-americanos fizerem crescer rapidamente o mais vultoso déficit de conta corrente de sua história: US$ 445 bilhões, ou seja, 4% do PIB dos EUA. Este déficit aumentou, em anos recentes, em 50% por ano, e os economistas prevêem que chegará a US$ 730 bilhões em 2006. A dívida externa acumulada dos Estados Unidos é igual a US$ 2,2 trilhões, quase o mesmo montante de dívida de todo o mundo em desenvolvimento, que chega a US$ 2,5 trilhões. Em outras palavras, 300 milhões de norte-americanos devem tanto quanto os cinco bilhões de pessoas de todos os países em desenvolvimento.

Enquanto as economias em desenvolvimento estão sendo sangradas através do pagamento do serviço da dívida, que totaliza mais de US$ 300 bilhões anuais, os EUA devem pagar apenas US$ 20 bilhões por ano pelo serviço de uma dívida quase equivalente. Para compensar seu déficit diário de mais de US$ 2 bilhões, mais a saída de capitais em igual quantidade, os EUA, na realidade, devem tomar emprestados US$ 4 bilhões por dia no mercado mundial de capitais. O déficit norte-americano está sendo financiado pelos frugais poupadores da Ásia Oriental, bem como pelos superávits acumulados por países como França e Suíça. As elites ricas em países como a Argentina persuadiram os respectivos bancos centrais a proporcionar-lhes moedas duras e imediatamente exportam esses dólares para bancos em Wall Street, Suíça e Londres. Se não fosse pela fuga de capitais, pelo menos 25 países africanos seriam credores e não devedores.

Para acumular reservas, os países pobres estão pedindo empréstimos em dólares aos EUA a taxas de juros que chegam a 18% e, depois os emprestam aos EUA através da compra de Bônus do Tesouro Norte-Americano, que pagam 3% de juros. Ninguém está certo sobre quanto tempo mais o déficit norte-americano poderá continuar em sua atual trajetória, mas fica claro que, em determinado ponto, deverá ser cancelado. Seja ele anulado por meio de uma repentina quebra ou por uma baixa continuada, o mundo em desenvolvimento sofrerá. A determinação dos EUA de consumir mais do que pode pagar está fazendo com que a “globalização” seja altamente instável. Por sua vez, isso está gerando tensões no mundo. Será necessário fazer ajustes econômicos. A questão que todos enfrentam é que, qualquer caminho que se tome, o ajuste será custoso, e não apenas para os ricos norte-americanos, mas para todos os países em desenvolvimento atados aos mercados e ao dólar norte-americano. (A autora, Ann Pettifor, é diretora do Jubille Research)

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