Tribuna do Leitor

Instrumento didático


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A edição do JC do dia 18 passado, trouxe na página 8, reportagem sob o título “Jornal é um novo instrumento didático adotado pelas escolas”, com texto da repórter Thaís da Silveira.

Excelente reportagem, já foi dito com muita propriedade: “O jornal é um livro aberto que se difunde por toda parte”.

O assunto abordado me fez voltar no tempo, revivi o início do meu exercício no magistério público primário do Estado. Moço, 27 anos, 1958, assumi uma classe no Grupo Escolar de Vila Seabra em Bauru (Praça Marechal Rondon), vindo removido por concurso de escola rural.

Chamou particularmente minha atenção, o título do noticiário ressaltar como instrumento didático “novo”, o uso do jornal nas escolas. O jornal como instrumento didático utilizado pelos professores em suas aulas, sempre foi um eficiente material auxiliar, rico em conteúdo para todas as disciplinas, em vários aspectos. Nas aulas de Prática de Ensino nas escolas normais, escola que formava o professor primário, as professoras chamavam a atenção dos normalistas sobre a importância do uso do jornal na sala de aula.

Além de levar as crianças ao hábito da leitura, estimula-as ao interesse pelos noticiários diários dos fatos acontecidos na cidade e no País. Utilizei na época os jornais: Correio da Noroeste, Folha do Povo, Diário de Bauru, infelizmente, todos extintos.

Para conhecimento e apreciação da prezada e ilustre jornalista, anexo xerocópias do “Jornal do GE de Vila Seabra”, jornal escolar por mim organizado, datado de abril e maio de 1958, quarenta e quatro anos atrás. Editado com muito trabalho e dificuldade, próprio da época, quando não dispúnhamos das facilidades de hoje: TV, videocassete, xerox, nem pensar em computador.

Como se observa, esse jornal escolar traz publicações de trabalhos escolares de alunos do 4.º e 3.º anos, realizados na sala de aula sobre: descrição, narração à vista de gravura, descrição à vista de gravura. Constata-se que os alunos interpretavam de modo correto os enunciados propostos e escreviam bem. Justamente, o que me estranha muito hoje, ler noticiário nos jornais atuais, afirmando que alunos da 8.ª série do ensino fundamental, antiga 4.ª série ginasial, muito mal conseguem escrever e ler.

Alegria e tristeza! Alegria e saudades da escola de outrora, eficiente, prestigiada com professores respeitados, valorizados. Tristeza, pelo descalabro da escola pública de hoje, ensino criticado, professores desprestigiados, com vencimentos aviltantes.

As classes privilegiadas em poder aquisitivo hoje, desprezam as escolas públicas do ensino fundamental e médio, matriculando seus filhos nas escolas particulares pagas. Antigamente os grupos escolares que ministravam o curso primário de quatro anos de duração, serviam indistintamente todas as classes sociais. Sentavam juntos no mesmo banco, o menino rico, o pobre, o branco, o preto, até meninos descalços. Hoje vive-se no Brasil um apartheid, justamente na educação básica, com a escola pública, a escola que educa o povo. Isto para mim é uma afronta ao regime democrático, nunca democracia.

Sem outro particular, com consideração e respeito, subscrevo-me. (Rodolpho Pereira Lima - professor aposentado do magistério estadual)

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