Tudo o que acontece pela primeira vez, de uma forma ou outra gera uma insegurança. Desde o primeiro dia na escola até o primeiro beijo e, é claro, a primeira transa sexual. Atualmente, as informações que se têm sobre o assunto são bem mais detalhadas e abrangentes, mas mesmo bem informados, os adolescentes ficam inseguros, cheios de medos e se deixam levar por mitos e irrealidades.
A virgindade ainda é algo que aflige as meninas que continuam querendo ser “politicamente corretasâ€, mas por outro lado, querem estar entre as mais populares do colégio. “Ás vezes, é estranho confessar que sou virgem. Tem gente que me acha boba, careta, mas não é isso, só acho que ainda não chegou a horaâ€, diz Camilly *, 17 anos.
Essa é a realidade dos dias de hoje. Algumas, que se dizem as mais populares e “descoladas†da turma, às vezes são confundidas com vulgares e promíscuas, outras, mais quietas e tímidas, são bobas e “caretasâ€. Fica difícil encontrar um meio termo e aí é que elas se enrolam na definição. “Ah, eu não sou virgem e também não fiz amor com um só, mas também não sou galinha, sou normalâ€, diz Elisabeth*, 17 anos. “Ela acha isso, mas eu já ouvi muita gente falando mal da gente. Eu também já fiz amor com mais de um cara. Quantas vezes nós brigamos com essas meninas idiotas que pensam que são santinhas? Isso é tudo fingimento, elas querem se fazer de santa, mas no fundo, são as pioresâ€, conta Marcela*, 17 anos.
Decisões
É uma fase difícil na vida de qualquer garota. Muitas dúvidas rondam as cabeças dessas adolescentes que se vêem diante de um problema enorme. O que fazer, como agir, quando é a hora, são algumas perguntas que elas costumam fazer a si mesmas. Elas realmente se acham cheias de problemas. “Eu me sinto mal. Na verdade, nunca sei como agir com os meninos. Se a gente não faz nada, a gente não vale a pena, se faz, somos galinhas. Você age como então? Ás vezes penso em conversar com alguém mais velho, mas não sei quem procurarâ€, conta Gisele*.
Como toda regra tem sua exceção, há meninos que acreditam que as meninas que têm relação sexual com mais de um, pode ser porque o primeiro não deu certo, ela começa a namorar outro e, é claro, que também terá relações. O estudante Marcos*, 17 anos, diz que não pensa como Gisele. “Eu acho que há várias situações. Lógico que tem aquelas meninas que saem com qualquer carinha e nem ligam de transar, mas tem aquelas que transam pela segunda ou terceira vez e não são galinhas, é apenas uma situaçãoâ€, explica.
Mas nem todos pensam igual. Há aqueles de famílias mais conservadoras que não gostam de saber que a atual namorada já esteve “nos braços†de outro. É como pensa Henrique*, 16 anos. “Se eu estou namorando uma garota e descubro que ela não é mais virgem, caio fora. Imagine só a cena: você querendo algo sério com a ‘mina’ e ela faz isso com qualquer um? Não dá, meu. Tô fora mesmo. O ruim é que tem umas, a maioria vai, que mente. Elas dizem que não rolou nada, mas a gente acaba descobrindo com os caras mesmo e se liga na fitaâ€, diz.
Em total acordo com Henrique*, Pedro*, 16 anos, complementa: “não meu, e saca só se a ‘mina’ tenta te enganar e depois, quando você vai, percebe que ela não é virgem. É a maior fria, meu. Elas pensam que conseguem enganar a gente, mas isso vai só até a hora do lanceâ€, afirma.
O problema é que, segundo especialistas, não tem mesmo como o garoto perceber que a menina não é mais virgem. A perda do hímen não significa que a relação sexual será diferente em sensação. Também não é porque a menina não sangra que ela não é virgem. Há aquelas que sangram e aquelas que não sangram.
Realmente e definitivamente, não tem como saber se a garota é virgem ou não. A não ser que se faça um exame ginecológico. Aí sim é possível saber. E pasmem: ainda há mães que levam suas filhas ao ginecologista para checar se elas são virgens.
Uma pesquisa realizada pelo psicólogo Álvaro Monttescho afirma que as mães, muitas vezes impulsionadas pelos pais, levam suas filhas ao médico com o objetivo de saber se a filha ainda é virgem. “O médico se vê numa enrasacada e sempre acaba dando uma de psicólogo porque, quando a garota não tem o hímen, tem que tentar dar a notícia para a mãe da maneira mais suave possívelâ€, diz Monttescho em entrevista ao site conversa de gente grande.
Conversa franca
Nem sempre os pais sabem tratar seus filhos adolescentes da maneira ideal. Muitos tentam ser modernos e legais, mas os filhos percebem que estão forçando a barra e, dessa forma, os pais não conseguem ter a confiança dos filhos. O ideal é que a família seja sempre unida e permita conversas abertas e francas entre todos, com os pais respeitando, sabendo o momento de ouvir e o momento de falar.
A psicóloga e professora de sexualidade do curso de Psicologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, Ana Cláudia Bortolozzi Maia, diz que a conversa entre os filhos e os pais, como queria Gisele*, é essencial e necessária. “Os adolescentes têm de saber que podem confiar na família. É importante eles terem com quem conversar, um porto seguroâ€, diz.
Mas ela alerta: não adianta o pai ou a mãe que nunca abriu espaço para conversas mais íntimas, de repente, a uma certa idade, chegar e dizer, vamos conversar. Assim, o jovem pode não querer falar e tem o direito de reservar sua intimidade. “Esse diálogo é fruto de uma história de educação sexual que vem desde criança. Pais que sempre conversam com seus filhos, tem mais facilidade em ter filhos que questionam, abrem o jogoâ€, explica.
A psicóloga diz que não adianta forçar a barra no sentido de fazer com que os filhos falem o que não querem. Eles só conversam sobre o assunto, de acordo com Ana Cláudia, quando sentem segurança na família, quando têm liberdade de falar sobre qualquer coisa.
Esse é o caso de Carolina*, 15 anos. Ela diz que tem total liberdade de falar com seus pais sobre qualquer assunto. “Eles sabem dos meus casos, meus rolos. Eu ainda sou virgem, mas se um dia resolver que é hora de ter alguém, vou chegar na minha mãe e falar e ela já disse que quando eu quiser, ela vai comigo ao médico e me ajuda a lembrar de tomar as pílulas diariamenteâ€, conta com um pouco de timidez.
Essa relação de pais e filhos, de acordo com Ana Cláudia, é muito importante. Ela explica que os meninos e as meninas não têm dinheiro para ir ao médico, comprar anticoncepcional ou camisinha, então, com a ajuda dos pais, fica mais fácil a prevenção.
Mais cedo
Atualmente, os jovens têm a primeira relação sexual mais cedo do que há alguns anos. De acordo com Carmita Abdo, coordenadora do Projeto Sexualidade da Universidade de São Paulo (USP), as meninas hoje têm a primeira relação por volta dos 15 anos (pode ser um pouco mais ou menos). O curioso é que houve uma diminuição na idade em quatro anos nas últimas quatro décadas. “Há quatro gerações, as mulheres geralmente perdiam a virgindade com 19, 20 anos. Isso é uma mudança significativa, se observar-se a situação dos garotos: nos últimos quarenta anos, a idade para a primeira relação diminuiu somente 11 mesesâ€, diz.
Isso, de acordo com ela, se deve à criação da pílula anticoncepcional, o que proporcionou uma maior liberdade feminina. Estes dados não são para criar pressão, mas para ajudar a lembrar que o melhor sexo é aquele feito com vontade e certeza. Tomando os devidos cuidados, não tem com o que se preocupar com o ato em si. A transa é uma atividade natural do ser humano, e cada um tem a hora certa para experimentá-la.
* Os nomes foram trocados a pedido dos entrevistados
Uma meta
No filme American Pie, quatro amigos que estão prestes a se formar, e ainda são virgens, fazem um pacto: eles tem que perder a virgindade até o baile da formatura. Nas tentativas de “completar a missão†eles chegam a conclusões surpreendentes, hilariantes e emocionantes sobre si mesmo, sua amizade, sua noção do amor, romance e suas relações com o sexo oposto.
Quando percebem que alcançar essa meta seja, talvez, fazer sexo sem prazer, sem ser com a pessoa certa, viram o jogo e mudam de pensamento. Alguns não perdem a virgindade e, nem por isso, são excluídos da turma. Isso só acontece porque um faz com que o outro veja que não importa a idade, o que vale a pena é deixar as coisas acontecerem naturalmente e quando tiver que ser, será.