Saúde

Vício infantil

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 4 min

A internação recente em Bauru de duas crianças em estado de coma alcoólico e suspeita de intoxicação por entorpecentes é mais um alerta aos pais e responsáveis para a saúde infantil. Segundo especialistas, a curiosidade natural de quem está descobrindo o mundo, aliada à natureza de imitação e ao acesso facilitado a produtos químicos pode dar início a um trágico processo de dependência química.

No último dia 16, um menino de apenas 7 anos foi levado ao serviço municipal de Pronto-Atendimento Infantil (PAI) apresentando quadro de vômito e confusão mental. Na oportunidade, os médicos disseram suspeitar de intoxicação por substância entorpecente e pediram exame toxicológico.

Na tarde do dia seguinte, outra garotinha, de apenas 10 anos, foi internada no mesmo local em estado de coma alcoólico. O pai, que é proprietário de um bar, declarou à polícia que estava trabalhando e que a menina teria se aproveitado de um descuido dele para ingerir a bebida. Segundo ele, a mãe trabalha fora de casa e a menina estava no estabelecimento por questões circunstanciais.

Os dois casos estão sendo investigados sob sigilo pelo Conselho Tutelar de Bauru, que também não divulgou os nomes das crianças para preservar a integridade delas. Se for comprovada a negligência ou administração destas substâncias, os pais podem receber punições que variam desde advertências verbais até a perda do pátrio poder.

Ação habitual

“Se você der um copo de cerveja para uma criança que nunca pôs a bebida na boca, ela vai vomitar, porque o gosto é ruim. Para chegar a entrar num coma alcoólico, é porque essa criança já teve contato com a bebida várias vezes, já criou o vício e bebeu uma quantidade significativa”, defende o pediatra Felinto dos Santos Neto, diretor do Departamento Municipal de Urgência e Emergência de Bauru.

Segundo ele, o consumo constante de drogas e bebidas vai elevando gradativamente a tolerância do organismo àquela substância. “Se você toma um copo todos os dias, em determinado momento você vai passar para dois, depois três, até ficar alcoolizado mesmo. O álcool, como o cigarro, são como qualquer outra droga. Quanto mais você consome, maior é a dependência”, observa.

Na opinião do médico, a criança que aceita a substância química ao ponto de sentir-se mal já está acostumada ao uso daquilo, de alguma forma. “Às vezes, os próprios pais oferecem um gole, porque acham bonitinho. Outras vezes, eles oferecem para aplacar a fome, porque não têm comida em casa. Outras vezes, a criança usa às escondidas e eles não percebem. O fato é que o uso constante cria o hábito e induz ao vício”, acrescenta.

Perigo ilimitado

Quem tem filhos sabe que os riscos estão por todos os lados, desde o dedinho na tomada e o cabo da panela voltado para fora do fogão, até a queda e a ingestão acidental de medicamentos e venenos. Um rápido fechar de olhos, atender o telefone, buscar algo na cozinha podem ser o tempo suficiente para que a vida e saúde da criança sejam expostas ao perigo.

“Há poucos dias, tivemos um caso no PAI de ingestão exagerada de xarope. A mãe tem dois filhos. O remédio está sempre guardado e trancado. Naquele dia, ela deu o xarope para uma das crianças, que regurgitou. Enquanto ela foi lavar uma, a outra pegou o vidro e tomou tudo. Quer dizer, a atenção tem que ser a todo segundo”, salienta o pediatra.

Responsabilidade

Segundo diferentes especialistas, antes de dizer que “acidentes acontecem”, é preciso cercar os pequenos de cuidados. É muito importante tirar os perigos do caminho e reduzir os riscos. Mas também é necessário estabelecer limites, disciplinar o comportamento, impor as regras da casa.

A constituição de uma família exige o cumprimento de inúmeras atribuições. A criança quer desbravar o universo, quer conhecer e experimentar tudo, quer fazer parte do que as outras pessoas vivenciam. Só que ela não conhece as conseqüências de nada. Ela precisa aprender, mas de forma natural e saudável.

Neste sentido, o diálogo, a liberdade e a confiança na família são fundamentais. A criança quer entender - alguém tem que explicar. Para o ser racional, “não pode” não significa nada se não vier acompanhado de um “porquê”.

Nem sempre é fácil argumentar com uma criança. Nestes casos, admitir que não sabe porquê é infinitamente melhor que impor uma posição sem justificativas. Dizer que também não sabe e assumir o compromisso de descobrir gera respeito e confiança. Para todas as situações, existem profissionais em condições de ajudar. Este é o melhor caminho para a formação de um adulto feliz e equilibrado.

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