Cultura

Coração verde e amarelo


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Padre Beto/ Especial para o JC Cultura

A vida possui seus paradoxos. Um deles é o fato de que acabamos compreendendo o significado de certas coisas quando justamente as perdemos ou nos distanciamos delas. Um presidiário conhece melhor do que ninguém o significado da palavra liberdade, um doente compreende na carne o que é saúde e aquele que perdeu um grande amigo sabe verdadeiramente valorizar uma amizade. Assim foi comigo em relação ao sentimento de ser brasileiro.

A minha nacionalidade e o amor à terra onde nasci sempre foram para mim algo de evidente. O que é na verdade um mau sinal, pois não há nada melhor que o óbvio para cair no esquecimento. Foi justamente muito longe do Brasil que acabei encontrando o meu “ser brasileiro”. Viver em outra cultura, seguir novas regras sociais, comunicar-se em outra língua, acostumar-se a um clima diferente e ver o mundo através de outra mentalidade são experiências que nos fazem refazer toda relação que temos com o nosso país de origem. Sem que me deixassem cair em um saudosismo barato e fazendo com que eu permanecesse aberto ao que era novo, estes anos de Alemanha ajudaram-me a fazer uma verdadeira re-descoberta do Brasil.

A confrontação com a minha identidade nacional começou justamente por não ser reconhecido como brasileiro, já que minha aparência não condiz com o “Brazil Export” do imaginário europeu: mulato, sambista e bom de futebol. Todas as vezes que conhecia algum europeu, era necessário um esforço incrível de minha parte para convencê-lo de que meu país de origem é o Brasil e não a França, a Espanha ou a Itália.

Com a reafirmação de minha identidade nacional foi se redefinindo melhor o sentimento de amor a este nosso país: o patriotismo. Certa vez, estava dando uma pequena palestra na comunidade universitária de Düsseldorf sobre a Igreja Católica no Brasil. Ao ser indagado sobre o caráter do brasileiro, entre outras coisas afirmei que nós, brasileiros, gostamos muito de nossa terra, possuímos orgulho das florestas, rios e riquezas naturais do Brasil e que vestimos o “verde e amarelo” com prazer. Imediatamente uma jovem alemã levantou a mão e perguntou: “Mas então, se o brasileiro ama o seu país, por que tanta miséria e corrupção?” Sem dúvida, em minha resposta argumentei que são vários os fatores que dão origem aos problemas sociais no Brasil como dívida externa, o processo histórico e político que o país viveu, etc., etc. Mas mesmo assim tive que admitir a contradição existente em nós brasileiros, pois o raciocínio daquela jovem universitária estava mais que correto. O nosso nível de patriotismo e a situação social que o nosso país possui estão intimamente ligados.

Patriotismo significa amor à pátria, ao país onde nascemos, à terra natal, ao lugar de origem. Este lugar não se resume a uma localização geográfica, mas engloba tudo aquilo que o caracteriza, como a cultura, a língua e, principalmente, as pessoas que ali vivem. E aqui encontramos o ponto central do amor à pátria. Patriotismo só tem sentido quando, ao amar o Brasil, amo o povo que nele vive.

Portanto, patriotismo deve estar diretamente ligado à solidariedade (do latim solidu), ao sentimento de estar unido às pessoas que vivem no mesmo chão, que encontram-se na mesma canoa. Somente com esta postura solidária, é que o patriotismo pode ser mais que expressões superficiais como a emoção diante da vitória de nossa seleção ou da subida do Rubinho ao pódio na Fórmula I.

O Hino Nacional, as cores da Bandeira e os feriados nacionais não podem estar separados do interesse de conhecer melhor os problemas que enfrentamos no Brasil e do esforço de uma partilha mais justa das riquezas do país, melhores condições de trabalho e estudo, voto consciente nas eleições, honestidade e amor ao próximo. Aqui, até mesmo as religiões devem dar sua contribuição, pois elas é que possuem a função de ligar e re-ligar os diversos seres humanos para que surja uma verdadeira solidariedade. A missão de uma religião ou de um caminho espiritual é manter viva a memória sagrada do elo que tudo liga e re-liga; é realimentar a percepção de que as coisas estão interligadas formando uma história comum, isso em tal radicalidade que possamos compreender que existe uma Fonte comum a tudo e a todos, à qual damos o nome de Deus. De qualquer forma, adquirimos uma identidade nacional a partir do momento que assumimos uma postura ativa de conhecer e construir uma nova realidade. “Quem nada conhece, nada ama. Quem nada pode fazer, nada compreende. Quem nada compreende, nada vale” (Paracelso).

Fale comigo através do e-mail: roberto.daniel@lycos.com

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