Copa 2002

'Estilo Felipão', uma marca registrada

Agência Folha
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Yokohama - O deslumbramento de Luiz Felipe Scolari está completo. Em 30 dias de Copa, o neto de colonos italianos nascido no Interior gaúcho descobriu o mundo como nunca fizera antes. Ao final, conquistou-o. É pentacampeão.

É o treinador da seleção mais fácil de ser adjetivado nos últimos anos. Já foi chamado, entre outras coisas de retranqueiro, rígido, estourado, motivador, teimoso, paizão, conservador, fiel, tosco, bondoso, pão-duro e catimbeiro. Já ganhou, desde que assumiu o time nacional, em junho do ano passado, um novo rótulo: encantado.

Primeiro, se confessou atordoado com o abismo entre clube e seleção, com vertigem e enxaqueca. Durante o Mundial, a surpresa virou arrebatamento. Com a nata do futebol brasileiro à sua disposição, ele parecia no início uma criança fascinada com a fartura.

Sentindo a ansiedade do treinador, a psicóloga e amiga Regina Brandão, a quem Scolari pagou do próprio bolso uma assessoria antes do Mundial, já que a CBF não quis fazê-lo, interpretou: “Não é fácil para uma pessoa que saiu do Interior do Rio Grande do Sul estar no meio da berlinda, exposta ao mundo inteiro.”

De tão embriagado, Scolari, 53 anos, mudou seus conceitos e aniquilou preconceitos dos críticos, escalando nos primeiros jogos um time ofensivo e com deficiências no setor com o qual sempre teve mais preocupação, a defesa.

Scolari conheceu os bastidores da Copa, conversou com os melhores técnicos, viu os melhores jogadores e as táticas empregadas por equipes de 31 países.

Chamou o Mundial de “palco maravilhoso”, admitindo que jamais imaginara ter vivido tal experiência. E quer repetir a dose. Campeão e tendo terminado o contrato com a CBF, terá de dar uma resposta ao convite da entidade para permanecer no cargo, hipótese que, por recomendação de amigos, já tinha descartado.

Os que o aconselham argumentam que o ápice é o melhor momento para deixar o time para entrar na história. Citam sempre Carlos Alberto Parreira, que saiu após o tetracampeonato. Caso ouça os amigos até o fim, seu destino deve ser a Europa, onde já confessou que sonha em trabalhar - e de onde devem surgir agora algumas propostas.

Por outro lado, gostou tanto da experiência da seleção e está tão feliz com o apoio dos brasileiros que fica tentado a permanecer.

Vai passar uma semana de folga no Rio Grande do Sul e pensar. Nesse período, deve ir a Farroupilha, ao santuário de Nossa Senhora de Caravaggio, sua santa de devoção, agradecer a graça alcançada.

O time pentacampeão do mundo será sempre lembrado como o Brasil de Ronaldo ou de Rivaldo. Mas não serão poucos os que recordarão a equipe campeã no Japão como o Brasil de Felipão.

Fidelidade

Yokohama - Luiz Felipe Scolari não mudou o comportamento que o caracterizou durante a final da Copa do Mundo. Do banco de reservas, orientou o time aos berros, fez gestos de reprovação, deu bronca em seus comandados e até no árbitro italiano Pierluigi Collina.

Visivelmente nervoso, porém, sentou e levantou do banco de reservas um pouco mais do que o habitual. Foram oito vezes durante o jogo. Pouco conversou com seus auxiliares Flávio Murtosa e Antonio Lopes. Quando deixava a cadeira, saía para reclamar, sempre aos gritos.

No primeiro tempo, pediu punição ao atacante Klose após uma falta em Cafu. No lance seguinte, o alemão recebeu cartão amarelo depois de fazer falta em Edmilson.

Insistentemente, pedia para o time pressionar a saída de bola adversária. Parecia prever que o primeiro gol sairia justamente assim, numa roubada de bola de Ronaldo próximo da área alemã.

Na comemoração do gol, o gesto tradicional de Scolari, balançando fortemente os braços, foi interrompido pelos reservas e outros membros da comissão técnica, que se amontoaram ao redor do técnico para abraçá-lo.

E no segundo gol, se repetiu. Ao final, Scolari abraçou e beijou, um por um, os membros de sua comissão técnica e os jogadores. O mesmo fez com o presidente da CBF, Ricardo Teixeira. Depois, deixou sua família comemorar o pentacampeonato na Ásia.

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