Porta-vozes de quase todos os Ministérios estão entreabrindo a boca para uma notícia que vinham mantendo, desde algum tempo, entalada na incontível garganta: - Já não pode o Governo Federal continuar contendo os atuais índices das tarifas públicas! Esperavam os setores mantê-los inalterados até o epílogo do exercício, dentro da perspectiva de uma inflação mínima, porém a prática de sua política econômica não saiu como o aguardado, confirmando lição pregada por estudiosos desta e outras matérias, segundo a qual, na prática a teoria é outra, totalmente diferente. Ninguém, ou quase ninguém, faz o milagre de deter as imposições da realidade, porquanto, por mais que procurem veredas bem encaminhadas ou dirigidas, as implacáveis setas do trânsito estarão apontando invariavelmente para outra direção ou para outra cor do semáforo, quer dizer, as fontes industrializadoras fecham os olhos às determinações da lei, reajustam os preços a seu talante e as comercializadoras acompanham o diapasão, logicamente. Não consegue o poder público maneiras para mudar os acontecimentos, colocando o trole em outros caminhos. Conseqüentemente, pelo menos por enquanto, não logram os técnicos governamentais redirecionar as pesadas e, quem sabe quadradas, rodas do grande veículo. Aí está, por exemplo, o discutidíssimo IPCA-15 (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) aparecendo nos meios de comunicação - JC deu destaque à notícia - apontando para já uma inflação alta, que, de 0,40% em maio deve ter fechada em 0,45% em junho na vida destrambelhada do País. Esperado pelo mercado como termômetro inflacionário do mês dos belos fogos de artifício e dos balões incendiários, o Índice discordou das apertadinhas previsões governamentais e se situou dentro das acertadas conjecturas dos analistas autônomos, às quais se vão aduzir as revisões tarifárias da energia elétrica, combustíveis, lubrificantes, telefonia, pedágio e tantos outros tributos que, por sinal, já estão aí em plena execução e continuarão crescendo (será que irremediavelmente?), a população ou o consumidor em geral pagam a conta gemendo e chorando neste penoso vale de lágrimas porque os setores que poderiam colaborar para desinflacionar demandas ou custos não dispõem de estrutura emocional e tecnológica ou, mesmo, vontade para fazê-lo. E o Governo, por seu turno, não procura acalmar o mercado porque - como arrisca o ministro da Fazenda - “o Brasil é maior que as suas turbulênciasâ€. Quem teria encomendado ao visionário Cabral um país de tão gigantescas proporções, que comporta tudo, inclusive exageros? É a nossa opinião. (O autor, N. Serra, é o jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado)
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