A economia informal de Bauru vive uma situação inusitada: vários vendedores ambulantes com alta pontuação na primeira fase da seleção que está sendo feita pela Secretaria Municipal do Planejamento (Seplan) ainda não entregaram o atestado de antecedentes criminais. Outros, com poucos pontos, apelam para continuar trabalhando.
É o caso de Carmem Maria de Jesus, que vende brinquedos, carteiras e bolsas em uma barraca na rua Gustavo Maciel, em frente à Praça Rui Barbosa. Ela somou apenas 55 pontos e tem medo de perder o espaço na calçada para outro colega, com maior pontuação.
Ela já entregou o atestado de antecedentes criminais e espera ansiosa a classificação final. Os camelôs que não apresentarem o documento à Seplan até amanhã, mesmo que tenha obtido alta pontuação na primeira seleção, estarão automaticamente desclassificados. Ao todo, 668 camelôs participam da seleção.
Há dois anos trabalhando no local, Carmem conta que precisa da renda para sobreviver. “Minha única fonte de renda é essa e ainda ajudo uma conhecida, que é como filha para mim, e uma sobrinha. Mas como não são minhas filhas e não tenho a guarda de nenhuma delas, esses dependentes não contaram pontos na seleção. Outros, que têm dependentes, fizeram 80, 90, 100 pontos “, afirma.
Apesar da pontuação baixa, Carmem não quer pensar na possibilidade de perder o ponto. “Trabalhei como doméstica, com carteira assinada, por anos. Mas desde que perdi o emprego, há dois anos, não acho outro apesar de ter percorrido todas as agências de emprego. Não posso perder esse ponto e nem ser transferida para outro lugar de pouco movimentoâ€, afirma.
Em situação semelhante está Reginaldo Carrascoza Gomes, que vende tênis em uma banca na Praça Rui Barbosa há três anos. Com 60 pontos na primeira classificação, ele está preocupado em perder o espaço de trabalho para outro concorrente. “Há colegas que fizeram 100 pontos. Como só 24 pessoas vão poder continuar trabalhando aqui na praça, tenho medo de ficar de foraâ€, diz.
Por precaução, ele já reduziu o estoque de tênis. “Não sei se vou ficar depois da segunda classificação. Então estou comprando menos mercadoria. Mas se eu perder esse ponto, vou brigar na Justiça porque não tenho outro meio de vidaâ€, conta.
Reginaldo diz que ganha entre R$ 600,00 e R$ 700,00 por mês como camelô, o que garante o sustento de sua família. “Trabalhei como metalúrgico em Santo André, fiquei desempregado e vim para Bauru. Aqui não acho emprego e a única saída foi montar uma barracaâ€, relata.
Eduardo de Moraes, que tem um carrinho de lanche na Praça Rui Barbosa, está na mesma situação. Com 60 pontos, ele tem medo de ser obrigado a sair do local em que trabalha. “Dizem que alguns fizeram 100 pontos. Estou com medo porque tenho mãe e irmã que dependem da renda do lanche. Não ganho bem, mas ajuda. Se perder o ponto, vou para a Justiça", promete.
Com 75 pontos na classificação geral, Clarice Salgueiro também está preocupada em perder o espaço de trabalho na Praça Rui Barbosa, onde vende churrasquinho.