Articulistas

Angola: Uma oportunidade única


| Tempo de leitura: 2 min

Com a morte do presidente da Unita, Jonas Savimbi, iniciou-se um novo ciclo na história de Angola, que gostaríamos que fosse, para aquele povo irmão, tão martirizado por anos e anos de sofrimento, de paz, com Justiça e respeito por todos, de concórdia nacional, desenvolvimento sustentado e democracia. Acrescentamos ainda, por ser particularmente relevante no caso de Angola: de boa governança, com repúdio expresso a velhos hábitos instalados de corrupção e com verdadeira transparência democrática.

A ausência de guerra não significa, como se sabe, necessariamente, a paz. A paz verdadeira constrói-se com diálogo, boa fé entre as partes e Justiça. Depois da morte de Jonas Savimbi, em condições que o tempo seguramente esclarecerá, os dirigentes militares da Unita reconheceram a impossibilidade de continuação das hostilidades, ordenaram o cessar-fogo e a deposição e entrega das armas. Em conseqüência, 80 mil combatentes da Unita entregaram as armas e estão agora aquartelados em 35 áreas dispersas pelo amplo território angolano, em condições, ao que parece, de grande penúria alimentar, com carências de toda ordem, principalmente de medicamentos. O alerta insistente tem chegado através da Igreja angolana, que tem realizado um trabalho persistente e corajoso em favor da paz, e também de instituições humanitárias como a Médicos sem Fronteiras.

A situação angolana, com relação ao futuro, está muito longe de ser linear ou sequer satisfatória. Ambos os dirigentes, subscritores por parte da Unita do memorando da paz sobre os acordos de Lusaka, assinado na presença do presidente José Eduardo dos Santos, foram autorizados pelo governo a sair de Angola com passaportes diplomáticos, estiveram nos Estados Unidos, estão agora em Portugal (onde já foram recebidos, oficialmente, pelo ministro dos Negócios Estrangeiros) e irão ainda a Paris e a Bruxelas, onde terão idênticos contatos, antes de regressarem a Luanda.

É incontestável que o fim da tão longa e mortífera guerra de Angola terminou com a derrota da Unita e a vitória do MPLA. Poderia ser de outro modo, depois da morte da figura carismática de Jonas Savimbi? Não parece. Até por que a paz já estava sendo, concretamente, negociada, com conhecimento das Nações Unidas, antes de ocorrer a morte de Savimbi, e esta estará relacionada com o processo de negociações de paz então já em curso.

A partir de agora - com os interesses internacionais poderosíssimos que estão em jogo em Angola - o tempo não vai, contrariamente às aparências, jogar a seu favor. O poder, como o dinheiro, são miragens efêmeras e passageiras. Perdem-se como se ganham. Há inúmeros exemplos de que assim é - na África e nos outros continentes. O que conta - quanto aos políticos - é a idéia que deles se projeta e vai se sedimentando nos espíritos dos seus concidadãos. Seria muito triste se José Eduardo dos Santos não compreendesse a oportunidade histórica que tem ao seu alcance e não soubesse aproveitá-la, com ambas as mãos. (O autor, Mario Soares, é ex-presidente de Portugal)

Comentários

Comentários