Em vigor desde a última segunda-feira no País, o novo percentual de álcool na gasolina pode tornar-se uma dor de cabeça para os proprietários de veículos. A mistura de álcool anidro no combustível subiu de 24% para 25%, mas, segundo notícia veiculada por uma agência, poderá atingir 26%, uma vez que a legislação permitiria uma variação de um ponto percentual para mais ou para menos.
É justamente nesse último caso que os automóveis poderão sofrer as conseqüências danosas dos novos índices. Quem alerta é a Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA). Segundo José Edison Parro, presidente da AEA, o percentual de 26% certamente causaria sérios problemas ao motor dos carros. “Ele afetaria o desempenho, as emissões e até a durabilidade do veículoâ€, ressalta ele.
A associação explica que o sistema de injeção eletrônica, utilizado atualmente na maioria dos automóveis, possui módulos e sensores de oxigênio que têm como função informar a central que gerencia o motor a quantidade de oxigênio que a mistura está consumindo durante a queima de combustível.
O problema é que, conforme a AEA, como os motores são calibrados de fábrica para utilizarem combustíveis com uma mistura de 22% de álcool, teores maiores que esse poderão afetar, principalmente, a durabilidade dos propulsores. “Como o álcool é mais corrosivo que a gasolina, poderá ocorrer um desgaste acentuado de componentes do motor, como mangueiras, dutos, filtros, válvulas e até o tanque de combustívelâ€, destaca Parro.
No caso do combustível com 24% de álcool anidro, índice utilizado até a semana passada, o percentual não traria grandes problemas, segundo o presidente da AEA. “Poderia haver um pequeno aumento no consumo, mas muito difícil de perceber. Somente através de testes essa alteração seria constatadaâ€, analisa ele.
Entretanto, Parro frisa que repetidas mudanças na mistura são prejudiciais. “Quando adotado um percentual, a injeção eletrônica têm a capacidade de se adaptar ao combustível, mas a troca constante desse teor faria com que o sistema não consiga acompanhar as alterações, causando problemas quanto à integridade dos componentes do motorâ€, adverte o presidente.
A AEA salienta, ainda, que a nova mistura fará com que os carros equipados com carburador diminuam as emissões de monóxido de carbono (CO), hidrocarbonetos (HC) e anidrido carbônico (CO2). Em contrapartida, complementa a associação, ocorrerá aumento nas emissões de óxidos de nitrogênio (Nox) e aldeídos, gases de características irritantes.
No limite
Para o engenheiro mecânico bauruense Marcos Serra Negra Camerini, o Governo Federal não seria leviano a ponto de colocar um combustível no mercado que estragasse os motores. Entretanto, ele enfatiza que, se a mistura atingir os 26% de álcool, estará chegando ao limite máximo de tolerância dos propulsores.
Segundo Camerini, os automóveis sem injeção eletrônica serão os mais prejudicados. “Com 24%, já ocorriam vários problemas. Ao passar para 26%, a diferença é mínima, mas suficiente para causar danos, principalmente nos carros mais antigosâ€, diz ele.
Entretanto, os veículos mais modernos, dotados de injeção eletrônica, também não estão imunes à nova composição da gasolina brasileira. “O sistema têm condição de se ajustar à mudança no índice do álcool. Mesmo assim, também serão afetados, pois a capacidade de adaptação à mistura atingirá seu limiteâ€, considera ele. E acrescenta: “O desempenho será afetado e o motor perderá potência e rendimento.â€
Camerini frisa, ainda, que muitos motoristas têm o péssimo hábito de andar com o tanque meio a meio, ou seja, com 50% de álcool e 50% de gasolina. “Isso é um crime para o motor, pois este trabalhará com uma mistura que não estará preparado para queimarâ€, afirma o engenheiro.
Ele complementa que o procedimento só seria possível ser feito, sem causar danos, nos propulsores com a tecnologia “flex-fuelâ€, ou combustível flexível.
Motores “flexíveisâ€
Apesar de não haver previsão de serem produzidos em série, os motores “flex-fuel†já são uma realidade. Eles se baseiam em uma tecnologia que permite que o veículo seja abastecido com álcool, gasolina, gasolina misturada com álcool em qualquer proporção ou gás natural.
Entre as montadoras nacionais, a Ford apresentou recentemente, durante o lançamento do novo Ford Fiesta, no Complexo Industrial de Camaçari, na Bahia, três protótipos do modelo com motores “flex-fuel†1.6 litro. “Não temos previsão de produção regular desses veículos no País, mas estamos preparados para qualquer eventual alteração no perfil das fontes energéticas no nosso mercadoâ€, diz Luc de Ferran, vice-presidente da Ford Brasil.
Um dos protótipos multicombustível é equipado com motor desenvolvido para utilizar, no mesmo tanque, tanto álcool hidratado como gasolina pura ou gasohol – gasolina misturada com álcool, como a existente no mercado brasileiro.
Essa flexibilidade, além de proporcionar a vantagem de escolha do combustível disponível ou mais econômico em cada situação, simplifica o sistema de alimentação do veículo, que dispensa a instalação de compartimentos de armazenamento independentes. Com potência de 105 cv e torque de 15,2 kgfm, esse motor roda com qualquer mistura de álcool ou gasolina.
O segundo conceito “flex-fuel†é um veículo bicombustível equipado para funcionar com álcool hidratado ou a gás natural (GNV). Para mudar o combustível utilizado, basta acionar um botão no painel. Ele dispõe também de um sistema que troca automaticamente a alimentação a gás, quando este termina, para o álcool.
Esse motor, que tem como base o modelo a álcool, desenvolve 109 cv e torque de 14,48 kgfm com álcool puro hidratado. Com gás natural veicular, ele fornece a potência de 97 cv e torque de 14,2 kgfm. Outra vantagem dessa combinação é eliminar a necessidade do sistema de partida a frio: o motor pode ser acionado com o gás.
Preço não muda
O bauruense José Antonio Reghine, um dos proprietários de um posto de combustíveis que atua há mais de 40 anos em Bauru, afirma que, ao contrário do que muitos motoristas podem pensar, não há motivos para o preço da gasolina aumentar devido ao novo percentual de álcool. “O álcool é mais barato que a gasolina e isso, por si só, já justificaâ€, afirma ele.
Reghine considera que a “brecha†na legislação que permitiria o índice de álcool atingir os 26% pode se referir a uma tolerância para efeitos de fiscalização. “Assim, uma gasolina que estivesse de 24% a 26% de álcool estaria legal. Entretanto, acredito ser muito difícil essa variação acontecer, uma vez que as distribuidoras possuem um controle rigoroso de qualidade de seus produtosâ€, conclui ele.
Possibilidades
A Ford já comercializa nos Estados Unidos linhas de veículos com combustível flexível. As picapes Ranger e os sedãs Taurus com motores de 3.0 litros foram os primeiros a oferecer sistemas de combustível flexível aptos a rodar com etanol, gasolina ou uma combinação dos dois combustíveis no mesmo tanque. Hoje, os modelos Explorer e Sportrac também dispõem da mesma flexibilidade.
“Dependendo da política que o Brasil venha a seguir nessa área, é possível trabalhar em duas direções: utilizar os veículos já desenvolvidos nos países onde os combustíveis alternativos são uma realidade ou avaliar a aplicação da tecnologia atual utilizando os combustíveis já disponíveis no mercado, com uma readaptação dos produtos existentesâ€, diz Rogelio Golfarb, diretor de Assuntos Corporativos e de Comunicação da Ford.
A utilização de veículos a combustível flexível implicaria também, segundo Rogelio, na revisão do status tecnológico atual no sentido de se criar uma solução brasileira que ofereça, ao mesmo tempo, flexibilidade para o cliente e respeito ao meio ambiente. Além disso, envolveria, ainda, a modelagem da matriz energética nacional e programas de incentivo governamentais.