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Manual de sobrevivência


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Com a crise econômica definitivamente presente entre nós, muitos leitores têm me perguntado sobre o que fazer para proteger seus investimentos financeiros. A volta das incertezas sobre o futuro do País, depois de quase oito anos em que a tranqüilidade e a confiança foram marcas importantes em nossa sociedade, apanhou a todos nós despreparados para esse tipo de exercício. Eu mesmo, crítico que fui por muito tempo da política econômica do governo FHC, fiquei surpreso com a intensidade e rapidez com que passamos do céu ao inferno. Não faz o menor sentido o Brasil ter hoje um risco soberano, quase três vezes o da Colômbia. Temos uma economia competitiva em setores importantes de nosso tecido produtivo, as variáveis macroeconômicas são razoáveis, o sistema político funciona a contento e um mercado consumidor de porte importante e funcionando de forma eficiente. Mas apesar disso, parece que o País está à beira do colapso financeiro e do caos.

Essa insegurança coletiva fica agravada pela forma como a imprensa vem cobrindo os acontecimentos, nas últimas semanas. Sem conseguir acompanhar em profundidade os fenômenos econômicos e financeiros que estão ocorrendo no Brasil, ela acaba reforçando os aspectos mais sensacionalistas das notícias. Tudo isso acaba aumentando a temperatura dos mercados e abrindo espaço para os agentes mais especulativos. Evidente que esse tipo de comportamento é hoje padrão na imprensa mundial e seria pueril cobrar algo diferente no Brasil. Por isso, meu primeiro conselho a meus leitores: não pautem suas decisões de investimentos pelas manchetes dos jornais!

Por mais assustador que seja o cenário de um governo Lula, nessa altura dos acontecimentos, não entrem em pânico em relação ao futuro. Esse é meu segundo conselho hoje. O PT e seu candidato, que já vinham passando por um processo de amadurecimento político, fruto principalmente das experiências de governo em alguns estados e muitas prefeituras, estão tomando uma ducha de realidade com a crise atual. O entendimento embora tardio de que eles serão os principais prejudicados pelos problemas de hoje, tem levado o partido a privilegiar suas correntes mais responsáveis e realistas em detrimento dos sonhadores ignorantes das coisas da economia. Nos últimos dias, Lula já assumiu publicamente uma série de compromissos que seriam impensáveis, há alguns meses. Continuidade do sistema de metas de inflação, aceitação da necessidade de superávits fiscais primários no Orçamento, respeito aos contratos e compromissos já firmados são algumas das decisões já tomadas. Não tenho dúvida de que com a continuidade da crise e o amadurecimento de pessoas importantes na hierarquia do partido, outras decisões serão assumidas publicamente. Evidente que não será possível, dada a natureza do PT, dar aos mercados financeiros a segurança necessária para que se normalize o fluxo de recursos externos para nosso País. Mas talvez um futuro governo Lula consiga devolver alguma racionalidade aos agentes econômicos. Hoje, o candidato Ciro Gomes assusta mais do que a alternativa Lula.

Diante desse quadro, não vejo razões para pânico em relação aos investimentos em reais. Mesmo em um cenário Lula, não acredito em confiscos ou outro tipo de expropriação da riqueza financeira que existe em nossa economia. Portanto, mantenham suas aplicações de curto prazo sem tentar inventar ou correr atrás de grandes propostas. Em relação à taxa de câmbio as coisas são um pouco mais complicadas! Pode haver uma desvalorização maior de nossa moeda na eventualidade de uma vitória da oposição com uma correção posterior, se o novo governo conseguir passar uma mensagem de bom senso. Manter uma parcela de suas aplicações indexadas ao dólar pode ser uma medida sensata! (O autor, Luiz Carlos Mendonça de Barros, é economista e publicador do site e da revista Primeira Leitura. Site: www.primeiraleitura.com.br)

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