Articulistas

Hosanas à Revolução


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Nove de julho de 1932. As primeiras pinceladas da nossa adolescência começavam, apenas, a despontar no nosso rosto, quando os bravos paulistas detonaram o primeiro tiro anunciativo do início de sua Revolução Constitucionalista. Havia razão plausível para que irmãos bandeirantes decidissem lutar com canhões, fuzis, aviões e outras armas contra irmãos de outros Estados, notadamente cariocas? Havia, sim, e, na verdade, bastante, fossem administrativas, políticas ou sociais, porque São Paulo, já, então, despontava como a principal Unidade da Federação em todas as dimensões e possuía, conseqüentemente, potencialidade para não se manter submisso a um regime ditatorial de âmbito nacional como o que estava sendo submetido resolutamente por Vargas (que posteriormente se suicidaria prometendo sair da vida para entrar na história), o qual inclusive negava aos bandeirantes o direito, sem dúvida sagrado, de eleger seu governador e prefeitos. Bandeirantes esses que, em pleno avanço cultural, tinham consciência política capaz de se governar livremente, sem necessidade de interventores federais. Era preciso, então, que alguém no País enfrentasse o regime discricionário e redemocratizasse todos os Estados. E o caminho não poderia ser outro a não ser levar, por alguma forma, ao conhecimento da União, o desejo dos amantes da liberdade, induzindo-a a mudar sua diretriz, gestora rigorosa da caminhada administrativa não só da gente paulista como dos oito milhões de quilômetros quadrados tradicionalmente saudados por uma mesma bandeira. Foi como se sublevaram os mentores bandeirantes, apoiados corajosamente pela população estadual, à qual se inseriu imediatamente a desta Bauru tão grande e amada, oferecendo a coragem de muitos de seus filhos, alguns dos quais tombaram.

Radicado, na época, na Paulicéia que não era a metrópole de hoje, o então jovem, que agora redige estas memórias, teve ensejo de presenciar cenas tristonhas, oriundas da refrega, entre as quais rígidas incursões nos céus locais dos insipientes mas audazes aviões federais, cognominados de “Vermelhinho” porque ostentavam a bizzaria dessa cor e vinham bombardear alvos militares da nossa Capital. Nas frentes de combate, localizadas no eixo São Paulo-Rio e outros pontos, a ferocidade das batalhas era impressionante, produzindo centenas de mortos de ambos os lados. E, enquanto as tropas se debatiam, outro acontecimento, igualmente triste, castigava o coração brasileiro: o falecimento de Santos Dumont, que morava na Paulicéia e, em seus derradeiros momentos, lamentou que “o avião, inventado por ele para transportar pessoas, estivesse sendo usado para matar irmãos”. Imperdoável, inegavelmente! Mas um milagre aconteceu: diante do inusitado, ambas as partes suspenderam por um dia as suas operações para dar lugar ao traslado do grande brasileiro rumo ao Rio de Janeiro. Ainda bem!

Hoje, 9/7/2002, a Revolução completa 70 anos e será lembrada em cidades paulistas e de outros Estados com celebrações especiais. Justas, e, portanto, muito merecidas porque homenagearão a memória de quantos contribuiram com suas vidas preciosas e bens materiais para que a Nação se libertasse do execrável poder discricionário que a martirizava e prometia ir longe. Hosanas a São Paulo e demais. É a nossa opinião. (O autor, N. Serra, é o jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado)

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