A Câmara Municipal de Bauru foi contrária ao relatório do Tribunal de Contas do Estado (TCE) que rejeitou a execução financeira da gestão de Nilson Costa do período entre 27 de agosto e 03 de dezembro de 1998. Em sessão extraordinária realizada ontem, o prefeito de então foi beneficiado com a votação em destaque do período de três meses de seu governo naquele ano. A medida abriu caminho para que 17 vereadores derrubassem o parecer do TCE que condenava o prefeito.
O maior obstáculo para derrubar o parecer contrário do tribunal foi demovido com a separação dos mandatos. Nilson governou a cidade interinamente por três meses e quatro dias em 1998 e atribuiu a Izzo Filho o aumento do endividamento da prefeitura nos meses anteriores. Em sua defesa, o prefeito alegou que não realizou novos empréstimos e também não gerou novos débitos naquele ano. A sessão de julgamento das contas teve início às 10 horas e terminou quase às 18 horas.
Ao contrário de Izzo, Nilson defendeu sua gestão em plenário. Ele iniciou valorizando o Legislativo. Depois, ressaltou êxitos de seu governo apontando a retomada dos pagamentos dos salários dos servidores em dia, do vale-compra e dos débitos com o plano de saúde do servidor. Ele também citou o parcelamento de dívidas anteriores e frisou que não concorreu para nenhuma nova despesa.
O prefeito alegou que assumiu a prefeitura em um momento de turbulência política e muitas dificuldades. “Assumi a prefeitura para colocar ordem nas contas e assim fiz nos três meses de 1998. Pagamos contas, chamamos os credores para negociar, parcelamos débitos e retomamos serviços e obrasâ€, defendeu.
Ao final de seu depoimento Nilson foi mais além. “Sem falsa modéstia, nosso governo mereceria um voto de aplauso e não um puxão de orelhasâ€. A citação não foi bem vista nem pelos vereadores da bancada situacionista. Nilson encerrou sua defesa alfinetando que o governo federal (do PSDB), gerou uma dívida externa de US$ 250 bilhões e débitos internos de R$ 750 bilhões.
A falta de pagamento da cota patronal do Serviço de Previdência do servidor (Seprem) - principal irregularidade de seu início de gestão - foi justificada pelas dificuldades financeiras. “Procurei pagar a parte do empregado em um período e iniciei a regularização gradativa do restante depois. Não seria justo sacrificar outros benefícios ao servidor naquele momentoâ€, argumentou.
Remédio amargo
Ao final da fala dos vereadores na tribuna (veja matéria abaixo), o advogado Valdomir Mandaliti utilizou cerca de 25 minutos das duas horas disponíveis para ampliar os argumentos em favor de Nilson Costa.
O advogado apontou que não conhecia nenhum ato que desabonasse a conduta política do prefeito. Depois, chamou a atenção dos vereadores para a dureza da consequência caso as contas de um período de sua gestão fossem rejeitadas. “Ele não merece se tornar inelegível por cinco anos por ter assumido a cidade em uma situação difícil durante três meses de governoâ€, disse.
Mandaliti também apelou para a inversão de posições no julgamento. “Se o prefeito tivesse renunciado ao final de novembro de 1998 o presidente da Câmara teria que assumir, ainda que por alguns dias. Se isso tivesse acontecido, hoje estaríamos discutindo a rejeição das contas de todos que assumiram o Executivo, mesmo que eles não tivessem colaborado para o agravamento da situaçãoâ€, citou.
O advogado repetiu que Nilson não aumentou as dívidas já existentes, mas buscou o parcelamento dos débitos. “O parecer do TCE joga na vala comum o prefeito zeloso com o dinheiro público e o que foi denunciado por corrupção. Não é justo ter a pecha de inelegível por cinco anos por três meses de governoâ€, finalizou.
Placar da votação
• Rejeição (R)
• Aprovação (A)
Toninho Garmes - R Faria Neto - A Edmundo Albuquerque - A João Parreira - R José Carlos Batata - R Clemente Rezende - R Eduardo Ávila - A Humberto Santana - A Lelo Rodrigues - A Leandro Martins - A Luiz Carlos Valle - A Luiz Carlos Jesus - A Majô Jandreice - A Milton Dota Jr. - A Osvaldo Paquito - A Paulo Madureira - A Paulo Eduardo - A Renato Purini - A Roberto Bueno - A Rodrigo Agostinho - A Walter Costa - A
Discursos vão da Bíblia ao passado de corrupção
A longa sessão extraordinária de ontem foi marcada por oito discursos de vereadores na tribuna. Cada um pôde discorrer sobre a execução das contas de 1998 por 15 minutos. A maioria das intervenções tendeu para questões políticas. As citações trouxeram desde trechos bíblicos, jurídicos a aspectos históricos do período político de turbulência vivido pela cidade no final dos anos 90. Leia trechos dos discursos dos vereadores que se manifestaram ontem:
• Santana - “Será que oposição é dar tapinha nas cotas ou faltar com a responsabilidade? A análise das contas merece cuidado. A análise é independente. Flexibilizar o erro é ser partícipe dele. É preciso ver isso com cuidadoâ€.
• Toninho Garmes - “Vejo a análise deste relatório como técnica. O voto do vereador é de mérito e deve ter em vista os elementos do processo. O TCE censurou a situação econômico-financeira do município. Se as contas estão irregulares não se pode justificar com o erro dos outros. Não compartilho com qualquer tipo de irregularidade. O Nilson foi eleito junto com o Izzo e ficou junto com ele por vários meses. E não se fale em dificuldades como se Bauru agora fosse maravilhosa. Ele e outros prefeitos deram o cano no Seprem, no Pasep, a dívida fundada era maior e em 1997 o TCE já havia apontado erros. O senhor vai prestar contas com o Ser Supremo do Universoâ€.
• Roberto Bueno - “Não podemos fazer julgamento precipitado e colocar a guilhotina na cabeça de quem não merece. E isso aconteceria se as contas fossem rejeitadas. Eu já disse em outra ocasião e vou repetir. Eu prefiro absolver o suposto culpado do que condenar um inocente. O Nilson fez a sua prioridade e foi o melhor para a cidade naquele momento. Não vou condenar quem acho ser inocente naquela circunstânciaâ€.
• Faria Neto - “Defendo o bom senso para se fazer justiça. A Câmara cassou o Izzo com propriedade. Só não concordo com a co-responsabilidade do prefeito com o vice já que o vice tem expectativa de direito na função. O tribunal de contas generaliza a análise das contas e dá um parecer técnico-financeiro. O Nilson Costa pegou a prefeitura arrebentada e vou usar o bom senso nesta questão. O TCE não usou o bom senso. O Tidei também não pagou o Seprem e o TCE e a Câmara erraram ao aprovar suas contas. Não se pode unificar os erros do Izzo com o período do Nilson. O voto deve ser separado para os períodos de governoâ€.
• Luiz Carlos Valle - “A dívida herdada pelo Izzo surgiu de um secretário chamado Raul Duarte, que assinou cheque junto com o Tidei, onde foi gerado muitas dívidas. O Nilson assumiu e não pagou o duodécimo atrasado da Câmara e disse para a imprensa que eu menti na época. Eles diziam que estava tudo em dia. O Nilson pagou por medidas irregulares que foram feitas pelo Izzo. Ele também recolheu dinheiro do servidor e não repassou para o Seprem. Mas para pagar os cargos de confiança, teve dinheiroâ€.
• Dota Jr. - “Esta sessão não pode ser transformada em lembrança de escândalos como o do macarrão. Este julgamento não é só técnico, é político também. O mesmo TCE que rejeitou as contas de 1998 aprovou em 1996 apontando mais de 40 irregularidades. Para mim é secundário se repassou ou não para o Seprem porque os outros não pagaram e as contas foram aprovadas. Não vejo desmando nem desvio no período do prefeito. Vejo prioridade nos gastos em 90 dias de governoâ€. (Ao final, Dota leu um trecho bíblico de Eclesiastes que fala da vaidade das coisas terrestres).
• Clemente Rezende - â€œÉ preciso ter zelo com o orçamento público. Este vereador não é inimigo do prefeito, mas cumpre o seu dever. Não se pode falar que não sabia dos erros porque ele fazia parte do governo. O vice-prefeito tinha a ambição de assumir e assumiu o cargo. Pagar os salários em dia e outras contas era obrigação. Ocorreram problemas como contratos com dúvidas. O que foi feito pelo Nilson para suprir as dificuldades financeiras daquele momento? Os cargos de confiança foram contratados normalmenteâ€.
• João Parreira - “O vice-prefeito endossa o governo como secretário, não é de expectativa, participou junto do governo. Só aceitaria votação em destaque dos períodos se o Nilson tivesse feito um mea-culpa, se tivesse realizado auditoria na prefeitura quando assumiu. Ele deveria ter visto o que ficou para trás, o que foi feito de errado. Então ele deixaria um divisor de águas entre a corrupção e sua gestão. Mas ele não fez nada. O que se falava naquela época era do pedágio de 30% e o Nilson geriu o que foi comprado pelo Izzo. Não vi nenhuma medida do Nilsonâ€.