Política

Para ouvidor, dengue sinaliza desvio

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 3 min

O assessor especial do Ministério da Saúde e ouvidor nacional da pasta, Benedito Nicotero Filho, acredita que o retorno de endemias como a dengue no Brasil está, sobretudo, associado a uma cultura de não aplicação dos recursos destinados para o combate das causas nos municípios. Nicotero menciona que em inúmeros municípios a prestação de contas não confirma o real uso do recurso para a área em que foi repassado.

Nicotero disse que a aplicação irregular dos recursos em distantes e diferentes municípios brasileiros foi a maior frustração do ex-ministro José Serra (PSDB) na passagem pela pasta. “Eu acompanhei isso no dia-a-dia. A fiscalização da execução do serviço, sobretudo de dengue, tem que ser constante. Senão, a causa da geração da larva não é combatida. noventa porcento dos casos de dengue atingem áreas residenciais”, conta.

O ouvidor nacional afirma que o ex-ministro Serra ampliou o envio de recursos para o combate de endemias para as prefeituras, mas isso não se refletiu em resultados na prevenção. “Se não combater o surgimento da larva fica difícil exterminar a dengue. O Serra mandou muito mais recursos do que deveria mas infelizmente esse trabalho coincidiu com o período eleitoral de 2000. A ausência de trabalho com esses recursos naquele período resultou nos problemas vistos já em 2001”, afirma.

Nicotero aponta que muitos prefeitos acabaram não utilizando os recursos na ação de impedir os criadouros do mosquito. “Se não agir na causa, não resolve o problema da dengue. O Serra ficou frustrado porque os recursos foram, mas nem todos foram utilizados. O dinheiro foi aplicado muito bem por alguns, mas não foi aplicado em muitos setores e este é um problema onde o sucesso depende de ação global e não só em algumas regiões. Senão, o mosquito é gerado em um local e a dengue surge em outro”, aborda.

Ele avalia que uma parte dos casos é aplicação indevida no combate das endemias. “Mas têm casos também que é pura e simplesmente desvio de dinheiro. Isso é caso de polícia porque o sujeito não faz, ou não faz direito”, aponta.

Conselhos Municipais

Ele concorda que uma das dificuldades para o acompanhamento dos gastos com saúde no Brasil é, aliado ao grande número de municípios e a enorme dimensão territorial, a ineficiência da maioria dos conselhos municipais da saúde. Cabe aos conselhos discutir com o agente público as políticas de saúde prioritárias para aquela comunidade e cobrar sua aplicação.

Contudo, Nicotero conta que em boa parte dos milhares de municípios de até 20 mil habitantes o conselho é um órgão meramente formal e em outros tantos sequer existe de fato. “Em muitos Estados, sobretudo os mais pobres, os conselhos municipais não estão formados ou são meros documentos. Não há reuniões. Em outros inúmeros o prefeito reúne parentes ou correligionários para os conselhos, que sem autonomia não fiscalizam, não atuam”, diz.

A deficiência gera dificuldade de verificação e se torna difícil saber os recursos repassados pelo governo foram ou não utilizados. “A prestação de contas acaba sendo uma peça contábil. Quem tem condições e deve fiscalizar e cobrar é quem está perto do gestos, na comunidade. Para isso estamos estudando que os conselhos tenham membros do Ministério Público ou de comunidades religiosas. Queremos evitar padrinhos, parentes e amigos do gestor”, adianta.

A ouvidoria nacional do Ministério da Saúde foi criada em abril deste ano pelo presidente Fernando Henrique (PSDB). O objetivo é ouvir os usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) sobre como os atendimentos estão sendo realizados e quais os problemas. A ouvidoria não apura denúncias, o que cabe à auditoria do ministério. “O ouvidor vai ouvir o usuários, como ele está se sentindo, quais as dificuldades, para depois buscar uma solução”, cita.

O processo de formação do setor é lento e depende da estruturação de um trabalho do gênero também nos estados e, por fim, nos municípios. “Nós estamos iniciando um processo. A idéia é que o usuário só recorra à ouvidora nacional quando sua questão não for solucionada no município ou no Estado. A ambição é que o projeto atinja todos os núcleos de saúde, cada unidade com sua ouvidoria, mas isso leva tempo”, comenta Nicotero.

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