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Onde não há poesia?


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Metrópoles mais desinibidas do País, Rio de Janeiro e São Paulo, assim como capitais que vão se adiantando no tempo, estão se infestando de favelas plenamente desmedidas. Sabem-no os seus milhares de habitantes, testemunhas visuais do aparecimento desses conglomerados, muitos deles perceptivelmente pobres e a grande maioria de complexão dolorosamente miserável. Bem poucos são os que logram fugir às caricaturas, por não serem palhoças e, então, são mimoseados pela vizinhança com o elogio de refúgio de ricos ou abastados. E sabem-no, igualmente, todos quantos, morando no lado “bem”, não estejam confinados naquelas tristes paisagens ou não têm diante dos olhos suas imagens, mas que tomam conhecimento delas através da mídia, principalmente quando - o que é quase rotineiro - são apresentadas como campo de batalha de terroristas e efetivos policiais, com seus tiroteios apavorantes, largamente mortíferos.

Quase não se têm hoje cidades, a partir de tamanho médio, destituídas desse tipo de vielas, fecundadas como simples bolsões e, após algumas madrugadas, transformando-se em amplíssimas favelas, pois dia a dia e mesmo noite-a-noite recebem tábuas e telhas que, horas depois, aparecem com a roupagem de novas moradias de gente de ambos (ou terceiros) sexos e todas as idades. Em Bauru, 19 favelas, com cerca de 2.700 barracos, estão aí abrigando mais de 14 mil moradores. Trata-se de um favelamento que, palavras do coordenador da Defesa Civil do Município, “surge como uma ferida e a gente vai deixando crescer. Conseqüentemente, a cidade está empobrecendo cada vez mais”. E acrescenta: “Bauru está precisando de um organismo que cuide exclusivamente de favelas. Ninguém faz nada em relação a isso no Município, sendo necessário, então, que se institua aqui um centro de triagem de imigrantes com estrutura multidisciplinar para detectar o problema”.

Entende-se que o coordenador pensa sensatamente, eis que é premente resguardar a população da urbe de perigos futuros, como os que martirizam o excesso e as dimensões das favelas dos grandes centros, além do que é imprescindível colocar o Poder Público e a sociedade na senda de uma cidadania dirigida aos pobres, que se marginalizam por falta de rendimentos financeiros e, igualmente, pelo grande pecado da época, a carência de emprego, ali experimentando sistemas infra-humanos de vida, que os induzem ao desespero, pois não encontram em seus albergues o encanto da poesia que o próximo tem. É, também, a nossa opinião. (O autor, N. Serra, é o jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado)

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