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Lula light


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Tudo faz crer que o velho PT radical ficou para trás, substituído por um novo Partido dos Trabalhadores, moderado e pragmático. Pelo menos essa posição ficou marcada com a entrevista de Luiz Inácio Lula da Silva no Jornal Nacional. Em vários momentos, o candidato à Presidência da República disse que o PT “mudou” e “amadureceu”. Para o mercado financeiro, que o vê com desconfiança, garantiu: pagará a dívida externa brasileira. “O PT evoluiu para compreender que os contratos firmados pelo Brasil com outros países precisam ser cumpridos”. Foi uma maneira de diminuir o “risco-Lula”. Apagar da memória do mundo financeiro aquela idéia maluca do José Dirceu de realização de um plebiscito sobre o pagamento da dívida externa. Foi aí que Lula mostrou ter sido treinado por algum Felipão do PT antes de ir para os estúdios da Globo: “Uma coisa é você perguntar para uma pessoa pobre, para um índio pataxó, se deve ou não pagar uma coisa. A pessoa vai dizer: não paga. No governo é diferente. É uma questão de Estado para Estado. Uma coisa é o cidadão comum dizer.” Todo inadimplente é pobre, ou índio pataxó.

Entendeu?... em política há coisas que se dizem para serem levadas a sério e outras que são apenas de brincadeirinha. Concordei com o seu José, o último dos marceneiros artesãos que restou nesta cidade capaz de consertar as gavetas da velha cômoda lá de casa: “Lula escapou de fianco.” Ele quis dizer com sua fala italianada que o candidato saiu ileso das perguntas dos apresentadores do JN, Fátima Bernardes e William Bonner. Só não entendeu porque os perguntadores foram tão agressivos com todos os candidatos e levantaram a bola para o José Serra.

Fiz a defesa dos colegas. Jornalista tem a obrigação de incomodar. Isso é fundamental para o eleitor conhecer os candidatos, como reagem diante de assuntos delicados. A habilidade de sair das armadilhas é valioso elemento para avaliação. Um presidente da República tem que demonstrar clareza de idéias, firmeza de princípios, convicção quanto ao rumo para o qual deseja conduzir o Brasil. Não se governa com roteiros pré-estabelecidos, com lições decoradas. É preciso memória, rapidez de raciocínio, improvisar sem perder a coerência. Veja o exemplo do pobre Fernando Henrique que se esqueceu de ter dado “sinal verde” para a intervenção no Espírito Santo e cedeu às argumentações do Brindeiro, engavetador-mor da República. O Serra também foi confrontado pelos perguntadores da Globo. Quando ministro da Saúde não deu conta da epidemia de dengue. Humilde, Serra até confessou que errou. Confiou nos prefeitos e governadores que sumiram com o dinheiro destinado ao combate ao mosquito.

Seu José concordou com o meu discurso, mas com uma ressalva contundente: “Mas não precisava o rapaz da Globo pedir desculpas pro Serra antes de fazer essa pergunta”. Observei o brilhantismo da estratégia de Lula ao desarmar o casal global quando cumprimentou Fátima Bernardes por sua performance na Copa do Mundo. Mesmo assim, Bonner questionou a falta de experiência de Lula. O candidato respondeu que está se preparando para a tarefa há mais de 30 anos. Viajou e conhece perfeitamente todo o País. “Além disso, o Brasil não tem boas experiências administrativas. Onde tem boas, as prefeituras são do PT”.

Com esse retrospecto do programa consegui arrancar um sorriso de satisfação no seu José: “Se a eleição fosse hoje votava nele”. Censurei-o por revelar aquele vício do eleitor brasileiro que deixa sempre para decidir na última hora. “Estou com um pé atrás porque o Lula admitiu que Orestes Quércia poderia subir no seu palanque” -, justificou.

Tento explicar que em política funciona a “teoria do hímen complacente” – cede mas não arrebenta. Seu José não entendeu muito bem e preferiu mudar um pouco o rumo da conversa para elogiar o corte de cabelo, a barba perfeita e o terno do Lula. “Com o meu voto ou sem o meu voto o PT vai dar certo desta vez”, prognosticou. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)

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