Dos quase 40 milhões de portadores do vírus HIV, cerca de 29 milhões (74%) vivem na África, onde estão reunidos os países mais pobres do mundo. É naquele continente que ocorre o maior número de novas contaminações e óbitos. Em 2001 foram 3,58 milhões de casos novos (70% do total mundial) e 2,23 milhões de mortes (79% do total mundial).
Um estudo do departamento de recenseamento norte-americano publicado há poucos dias indica que a expectativa de vida em sete países da África subsaariana é inferior a 40 anos, essencialmente por causa da aids.
Em cinco destes países (Botswana, Moçambique, Lesto, Swaziland e África do Sul) a população deverá diminuir até 2010. Isso significa que haverá mais mortos que nascimentos. No Zimbábue e na Namíbia, o crescimento populacional será próximo de zero, indicando a mesma tendência.
“A América Latina não disputa espaço, nem protagonismo com a África, onde a situação da aids é gravíssima. Mas a situação de nosso continente está indo na mesma direção e não queremos que aconteça a mesma coisaâ€, alerta Patricia Mónica Pérez, representante da América Latina e do Caribe na Comunidade Internacional de Mulheres vivendo com o HIV.
A afirmação foi feita durante a 14.ª Conferência Internacional Sobre a Aids, realizada em Barcelona (Espanha) desde o último domingo. Membro fundadora, em 1992, da associação, com sede na Argentina, Pérez é taxativa quando responde sobre a América Latina: a situação é crítica.
“No Peru, não há tratamentos. Trata-se da mulher grávida enquanto dura a gravidez; no Equador, faltam mais medicamentos para distribuir de maneira urgente e existe muita discriminação; no Paraguai, a situação é semelhante e os acessos aos tratamentos são nulos; no Chile, há uma tímida abertura para o tratamento; na Venezuela, se começou - tarde - uma política sanitária e tratamento; e em Honduras é muito complicado recorrer às terapiasâ€, sintetizou.
Pérez, que convive com o HIV há 15 anos, alerta que, em geral, o acesso ao tratamento nestes países depende do poder aquisitivo do paciente. Ela lamenta que faltem facilidades de acesso aos medicamentos que podem prolongar e melhorar a vida do enfermo. E defende que os poderes públicos precisam oferecer mais informação sobre a enfermidade.
Mais indícios
O informe Onuaids 2002, divulgado no início deste mês, confirma esta tendência para a América Latina e Caribe. Segundo o documento, existe o perigo de que a epidemia de aids, já bem instalada, se propague de forma rápida e extensa nesses países na ausência de respostas eficazes.
Em 2001, as duas regiões registraram 200 mil novos contágios, totalizando quase 2 milhões de portadores do vírus HIV atualmente (1,5 milhão na América Latina e 420 mil no Caribe). No ano passado, 100 mil pessoas morreram com aids, elevando para 330 mil o número de órfãos na América Latina (130 mil deles no Brasil) e 250 mil no Caribe (200 mil deles no Haiti).