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Informação será mais ágil no futuro

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 9 min

Num futuro não muito distante, a informação chegará ao público de muitas maneiras, cada vez mais rápido e num volume ainda maior. É assim que o professor belga Jan Servaes, PhD em comunicação, encara o desenvolvimento das mídias.

Mesmo com uma inevitável intervenção do poder político e econômico nas grandes corporações de comunicação, que se formarão até por uma questão de sobrevivência no mercado, o jornalismo continuará exercendo sua atividade de informar, pois leitores e espectadores estão cada vez mais ávidos por informação.

Nesta corrida, o professor da Universidade Católica de Bruxelas - que é vice-presidente da Associação Internacional de Estudos de Comunicação Social, com sede na Áustria, preside o Consórcio Europeu de Pesquisa em Comunicação (ECCR), na Bélgica, e viaja o mundo pesquisando a atuação e o impacto das mídias - afirma que o Brasil não deve nada em sua estrutura de comunicação para outros países. Mas defende que em qualquer lugar é necessário ter acesso à informação.

Servaes passou a semana em Bauru, ministrando na Universidade Estadual Paulista (Unesp) o minicurso “Desenvolvimento auto-sustentável e o papel da mídia local”, durante o 7.º Colóquio Internacional de Comunicação para o Desenvolvimento Regional. O evento foi promovido pelo programa de Pós-Graduação em Comunicação da Faculdade de Arquitetura Artes e Comunicação (Faac) da Unesp e Cátedra da Unesco-Umesp de Comunicação. Antes de voltar a Bruxelas, o professor Servaes conversou com o JC.

Jornal da Cidade - Como os meios de comunicação brasileiros se situam diante dos meios de comunicação do mundo? As diferenças são muito grandes? O Brasil fica devendo algo à imprensa internacional?

Jean Servaes - É claro que existem tendências gerais em toda a parte do mundo. Por exemplo, o ponto-de-vista das mídias no poder econômico, no qual são criados monopólios de empresas nacionais. Esse domínio é uma tendência geral. A tecnologia também influencia as possibilidades e limitações dos meios de comunicação. Dessa forma, pode-se usar a tecnologia da Internet em toda parte do mundo, mas não se pode usá-la quando não se tem dinheiro. É ainda coisa de rico. Este é um aspecto que a tecnologia determina com o aspecto social. As tecnologias estão vivas e o tempo todo são criadas novas tecnologias, mas ao mesmo tempo temos que compará-las com a situação atual política, social e cultural. Isso é o que se observa ao redor do mundo, mas em cada caso específico, como aqui no Brasil, está o contexto cultural no qual as mídias se organizam como instituição, mas também e mais importante ainda, como conteúdo. Trabalhando no jornalismo diário, você tem que selecionar as informações do ponto-de-vista de seu público, pois as informações que não interessam ao seu público não serão publicadas. As informações internacionais que as agências de notícias transmitem também não deveriam ser todas publicadas porque não se sabe ao certo o que realmente se passa. É uma situação dependente que está determinando algumas estruturas culturais, sociais e econômicas. Em nível de conteúdo existem situações particulares que o determinam também. Por exemplo, aqui em Bauru, as pessoas assumem que gostam de cultura brasileira e por isso não têm interesse em outros tipos de expressões culturais. Por outro lado, em outros países a influência da cultura brasileira será possivelmente muito limitada. Quando se fala de conteúdo, temos sempre que levar em conta a visão dos leitores e do público para quem você trabalha.

JC - Nesse sentido, com a globalização e o advento da Internet a afirmação era de que o mundo estaria ao alcance do todos e de certa forma está. Mas as pessoas parecem não procurar esse universo e ficam centradas em um universo virtual muito próximo, não aproveitando as possibilidades da rede. É isso o que realmente acontece?

Servaes - Sim, a tecnologia da Internet tem contribuído para a idéia de um mundo global. A gente pensa que está vivendo num mundo mais ou menos similar, organizado, globalizado. Pode-se comer McDonald’s aqui e em outras partes do mundo, mas o que se come não é simplesmente hamburguer, mas também um tipo de cultura, uma estrutura de consumo e uma maneira de viver. A Internet tem influído nas nossas concepções sobre o mundo, ao mesmo tempo não podemos dizer que a cultura global é a mesma em todo o mundo, sempre está localizada em seu próprio contexto. Quando você e eu visitamos a Internet, possivelmente estamos buscando algo de nossa perspectiva e de nossa localidade. Além do mais, no futuro a Internet vai se desenvolver da mesma maneira como acontece com as redes de televisão. Na Europa, por exemplo, há canais públicos que depois de um tempo de veiculação, se introduzam os típicos programas comerciais, como existem aqui na televisão. Os programas mais culturais e com uma carga de informação, com debates sobre temas políticos e sociais, estão desaparecendo da maioria dos canais da Europa, porque os canais públicos têm que competir contra os canais comerciais. Por isso, para conseguir um filme ou informação especial, precisam pagar ou pedir por escrito aos canais a cabo. Por isso, possivelmente com o desenvolvimento, a Internet pode apresentar-se como um mercado onde você passa a comprar algumas informações e visitar alguns sites muito especiais da mesma forma que se visita hoje os sites de diversão ou de pornografia, só por assinatura. O mesmo tipo de desenvolvimento do cabo pode repetir-se na Internet por isso, não podemos deixar de buscar uma alternativa, uma evolução.

JC - Aqui no Brasil, os poucos canais públicos vivem de reprisar programas e estão sempre em dificuldades financeiras. Nos outros países, há o mesmo tipo de problema?

Servaes - Sim, a história pode ser diferente, pois na Europa os primeiros canais estavam públicos, na América Latina nasceram comerciais, nos Estados Unidos também eram comerciais e só nos anos 60 passaram a existir emissoras públicas. Mas em geral, cada vez mais emissoras públicas ficam minoritárias e pequenas em comparação aos canais comerciais. Especialmente na Europa, se vê que as emissoras públicas não continuam produzindo programas de qualidade, pois têm que competir com as outras. Num processo mundial, o Brasil está representado pelas novelas da Rede Globo e é respeitado por isso. Mas a continuidade desse processo não pode ser com produtos locais, precisam ser internacionais, mesmo que mais consumidas no mundo latino. O reflexo econômico disso é que o México é o produtor das novelas de baixo custo, bem como os seriados produzidos em Miami. Na Europa, as pessoas que consomem novela gostam de seu conteúdo romântico ou do fato de assistí-la todo dia. Mas existem países que usam o gênero para introduzir temas sociais e educar sua gente. Não sei se usam a novelas assim no Brasil, mas sua forma pode introduzir novas idéias.

JC - A acelerada evolução das mídias eletrônicas pode acabar com o jornal de papel?

Servaes - Não. A própria história mostra que cada tecnologia não vai ultrapassar outra mídia. Os meios de comunicação impressos são muito antigos, mas não vão deixar de produzir o que é consumido pelos diversos tipos de público.

JC - O caminho da mídia impressa está na segmentação cada vez maior ou na rapidez da informação?

Servaes - Está claro que no processo econômico as empresas têm que colaborar e às vezes têm que comprar outras empresas ou são compradas por outras por estarem num mercado muito competitivo. Entretanto, os leitores querem mais e mais informação e as empresas acabam produzindo muito mais páginas por dia para satisfazer esse consumo, para que o leitor não mude de mídia. Isso é um tipo de desenvolvimento que acontece em outras mídias também, mas não significa que hoje, vivendo num mundo global, se pode saber quase tudo de cada pedaço do mundo, que vivemos num mundo livre onde não há aspectos que sejam censurados pelo poder público. A maioria dos repórteres da imprensa de um modo geral têm que produzir coisas que sejam comerciais e vendáveis e também têm que trabalhar muito rápido.

JC - Isso quer dizer que o jornalismo perdeu um pouco do caráter investigativo?

Servaes - Sim. E isso pode ser comprovado em reportagens sobre coisas muito importantes em nível político e econômico. Existem poucos jornalistas e poucos veículos que querem reportar esses temas a fundo.

JC - Mas isso ocorre no mundo todo?

Servaes - É um fenômeno mundial sim. Nos Estados Unidos, depois do que aconteceu em 11 de setembro, a guerra contra o terrorismo influiu muito no conteúdo da imprensa. Os jornais não puderam e não podem escrever sobre todas as estratégias do Pentágono, não podem contar o que passa no Afeganistão. Para o leitor isso é uma desinformação e para os veículos é uma censura por parte do poder político.

JC - Por outro lado, o cuidado com a informação e com as fontes tem se intensificado nos últimos anos. O respeito pelas pessoas envolvidas numa matéria é bem maior. Busca-se ao máximo preservar identidades. Na Europa, pelo contrário, se tem uma imprensa sensacionalista bastante forte. Como o senhor analisa esse contexto?

Servaes - Há todo tipo de jornal e de repórter em todos os lugares do mundo. Há repórteres sérios e aqueles que buscam as coisas sensacionais, mas acho correto dizer que a maioria dos jornalistas trabalha de maneira profissional e é atenta aos aspectos legais, não criando situações ilícitas ou processos judiciais. Eu tenho muita simpatia pelos jornalistas e pelo que fazem, mas é necessário questionar sob qual perspectiva trabalham. Se trabalham por um preço, por uma ideologia política ou para dar informações ao público que paga pelo meio. Às vezes isso se perde e no futuro penso que as empresas de mídia irão competir dentro de si mesmo e de um meio a outro: um jornal contra uma emissora de televisão. Isso será sentido pelo mercado.

JC - Nessa briga, qual a tendência? Aumentar a quantidade de informação?

Servaes - A quantidade vai aumentar e muito, mas a qualidade sempre sofre, porque a cada dia se tem tantos dados e tanta informação que se pode usar, mas menos tempo para escrever seus artigos. Com isso, não teríamos um produto de baixa qualidade, mas teremos mais produtos.

JC - Na Copa do Mundo vimos jornais coloridos serem entregues nos estádios com notícias dos jogos que acabaram de acontecer. Aqui em Bauru fizemos algo parecido. É uma tendência o meio impresso acompanhar a velocidade do meio eletrônico?

Servaes - Sim, claro. E os jornais diários podem publicar mais conteúdos do que os programas de televisão, que têm um tempo restrito. Assim, os jornais podem ter mais retorno do que os outros meios. A respeito do Mundial, a imagem do Brasil é muito positiva nos outros países, que o conhecem como o povo alegre que joga futebol, é bonito, tem samba e Carnaval. Mas penso que os brasileiros e eu ficaríamos mais felizes se o Brasil fosse visto no seu todo. A mídia tem esse papel.

JC - Nesta semana, em Bauru, o senhor acompanhou o Jornal da Cidade?

Servaes - Acompanhei sim, mas não tive tempo de analisá-lo a fundo. Mas é um jornal grande como se vê em outras partes do mundo. Tem seções de política interior e exterior, aspectos econômicos, mas muito sobre esportes e informações locais. Não é uma crítica, mas como todo jornal local do mundo, tem que se concentrar no seu contexto local.

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