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Reflexões na hora amarga - Desespero cada vez mais evidente


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Em face do cenário internacional existe, pensamos, uma interpretação infelizmente dominante e que nos parece completamente equivocada.

Referimo-nos ao poderio que muitos consideram definitivamente imbatível, à disposição agora, e seguramente por algum tempo ainda, do governo mundial a que nos temos referido repetidas vezes, e cuja existência até bem pouco era generalizadamente ignorada. Tal governo é o que corresponde ao que chamamos de “nação pluriestatal” por estar presente, em diferentes níveis de influência, na maior parte dos países do mundo. Os que compõem a referida nação provêm de diferentes etnias e culturas e representam os que, ao longo do tempo, foram mais persistentes e eficazes no culto ao “deus” que lhes uniformiza a conduta, o lucro pelo lucro, hoje geralmente designado como Mercado. Esse estranho “deus”, de cujas leis e exigências ouvimos falar a cada passo, como coisas irretoquíveis a que todos temos de obedecer, e sob cuja orientação não deve o homem apenas produzir para prover necessidades reais e naturais, pertinentes às exigências do seu corpo e do seu espírito, mas viver para produzir, o que se supõe um consumismo desenfreado e sem peias, sem limites e, freqüentemente, desnecessário e sem sentido. Sem sentido e inapelavelmente frustrante, de vez que no homem, como o temos assinalado tantas vezes, a capacidade de desejar é ilimitada, sendo a de usufruir efetivamente, restrita, quando mais não seja pela duração fugaz de sua vida. Os dirigentes de semelhante desvario, eles próprios suas vítimas, são, no momento e segundo ainda supõe, a maioria imensamente poderosos e imbatíveis. Entretanto, supomos nós, na verdade eles estão em desespero. E a razão para essa nossa suposição assenta no fato de que eles estão conscientes de que sendo, como efetivamente são, uma ínfima minoria em cada uma das numerosas nações que conseguiram colocar a seu serviço, sempre esteve garantida pela ignorância da sua existência, mantida em rigoroso sigilo e sempre atuante por detrás da alegação de pretextos justos e nobres. Agora, porém, sua existência se vem tornando cada vez mais patente o que, óbviamente, significa para ele perigo mortal. Daí o supormos que, ao contrário do que ainda parece à maioria, a arrogância crescente com que atua, longe de revelar segurança, denuncia se não pânico, seguramente, risco iminente, capaz de recomendar o “tudo ou nada” explicativo da arrogância a que nos referimos. Haja visto a nova doutrina de defesa nacional explicitada pelo sr. George W. Bush, presidente formal dos EUA, por ele denominada de “ação preventiva”.

Até há pouco, a Defesa americana estaria baseada na capacidade de dissuasão e na deterrência; na capacidade de retaliar, desestimuladora de qualquer agressão e, mais recentemente, na capacidade de inutilizar qualquer agressão de que pudesse ser alvo. Ambas as concepções agora foram tidas como ultrapassadas, de vez que ineficazes face aos atos, imprevisíveis, de terrorismo. Assim, arrogam-se os EUA, principal baluarte do poder da nação pluriestatal a que nos temos referido, de levar a cabo “guerras preventivas” contra quaisquer países que, segundo os seus agentes de espionagem, ajudem ou prestigiem ou, somente, tolerem, a presença de terroristas nos âmbitos de suas soberanias. Estariam em tal caso, adiantou o sr. George W. Bush, além das que constituem o que ele designa como “eixo do Mal” o Iraque, o Irã e a Coréia do Norte, um total de cerca de 60 nações!

O mundo recebe, assim, a informação de que cerca de um terço do total das nações com assento na ONU estão sujeitas à ação bélica do “poder mundial”, agora cada vez mais desmascarado e, por isto, cada vez mais truculento. Resta a pergunta: por que será que somente os EUA e o Reino Unido são alvos do terrorismo? Por que será? Será pelo que nós temos feito ao mundo? (O autor, Jorge Boaventura, é colaborador do JC, home-page: www.jorgeboaventura.jor.br. E-mail: brasil@jorgeboaventura.jor.br)

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