Cultura

Sesc exibe marco do cinema moderno

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 3 min

Um homem moribundo, um magnata da comunicação, murmura sua última palavra: “rosebud” e morre. O que se segue é uma investigação para saber o que quer dizer essa derradeira informação. “Cidadão Kane”, que o Sesc exibe hoje, a partir das 20h, com entrada gratuita, tem uma premissa até que simples. Nas mãos de um gênio, o filme se tornou não apenas um clássico, mas uma verdadeira aula de cinema.

O que menos importa sobre “Kane” é o título de “melhor filme de todos os tempos”, que a fita carrega desde o final da década de 50. Vários filmes de Chaplin; “O Encouraçado Potenkin”, de Einsenstein; “O Nascimento de uma Nação”, de Griffith; ou “Oito e Meio”, de Fellini, poderiam ter a mesma honra sem que nenhuma das partes fosse menosprezada.

“Cidadão Kane”, deve ser visto (e revisto - quantas vezes forem possíveis) porque tem uma série que qualidades que até hoje a maioria dos filmes não possui. Além disso, o clássico de Welles inovou em tantas frentes, que tornou praticamente impossível que o cinema seguisse a sua evolução natural sem “copiar” suas descobertas. Mesmo sem o filme ter sido bem recebido quando saiu, em 1941.

Biografia disfarçada

“Kane”, foi o primeiro filme de Orson Welles, que, aos 25 anos, vinha de uma carreira brilhante no rádio. Dois anos antes, ele havia deixado o país em pânico ao transmitir uma “invasão” marciana, inspirado em “A Guerra dos Mundos”, do inglês H.G. Wells. Welles se transformou em uma celebridade apesar da histeria que tomou conta dos Estados Unidos, com muita correria, congestionamentos e até suicídios.

Ele conseguiu dos estúdios RKO, então uma potência em Hollywood, carta branca para produzir, dirigir, atuar - enfim, fazer o que quisesse - com direito inclusive, ao corte final do filme, um privilégio que apenas alguns monstros como Ford, Wyler, Wilder e Huston, possuíam.

O resultado foi uma biografia disfarçada (e nunca assumida) de William Randolph Hearst, o mais poderoso homem de comunicação dos Estados Unidos, na primeira metade do século.

Mas “Kane” não é uma mera biografia disfarçada, é um filme sobre a mídia, sobre a América, mas, acima de tudo, uma demonstração de como é impossível conhecer completamente uma pessoa, por mais que ela seja uma personalidade. Por isso é possível que cada um tenha uma impressão própria sobre o que o personagem quis dizer quando disse “rosebud” antes do último suspiro.

Para ver “Kane”

Quem vê “Cidadão Kane” pela primeira vez pode até ter a impressão de que está assistindo a um filme comum. Essa sensação é a que faz dele um espanto. “Kane” parece comum porque hoje em dia é difícil ver um filme ou até uma novela, sem enxergar os recursos que Welles ousou colocar na tela - alguns pela primeira vez.

A primeira inovação foi a narrativa não-linear, usando flashbacks para contar a história do morto sob diferentes pontos de vista. Além disso, há a fotografia (de Greg Tolland), que permite que o espectador veja as imagens do fundo com a mesma nitidez de quem está no primeiro plano, invertendo às vezes essa ordem. Tolland e Welles também brincaram com o posicionamento das câmeras e criaram os planos de baixo para cima, até então inéditos.

Por conta desse brincadeira, os cenários também mudaram e, pela primeira vez em um filme, era possível ver os telhados das salas onde estavam os personagens.

Além das inovações , o filme traz um elenco perfeito, onde Welles se destaca no papel-título, fazendo qualquer um acreditar no personagem não importa a fase da história. Ele é perfeito quando Kane é um jovem e também quando é um idoso.

Welles ainda fez pequenas obras-primas (“A Dama de Xangai” e “A Marca da Maldade”, entre elas) em sua curta carreira como cineasta, mas nem precisa ter se dado ao trabalho. Com “Kane”, ele começou o cinema moderno e fez uma obra que continua atual até hoje, 41 anos depois de ter sido produzida. Não é pouco.

Serviço

“Cidadão Kane”, hoje, às 20h, no Sesc. Entrada franca. Av. Aureliano Cardia, 6-71. Informações: (14) 235-1750.

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