Tribuna do Leitor

Avião arremete e assusta Jardim América


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Sou piloto de B-767 na Varig com 8.500 horas de vôo e formado em Engenharia Aeronáutica pela USP-São Carlos. Estava fora de Bauru desde sábado cumprindo minha escala de vôos e, hoje, ao retornar para casa, tomei conhecimento da matéria sobre o susto causado pela arremetida de uma aeronave realizando vôo de transporte regular de passageiros. Estava em casa na sexta-feira e como moro próximo ao aeroporto também ouvi quando a aeronave iniciou o procedimento de arremetida. O susto tomei hoje ao ler a matéria. A fim de esclarecer um pouco o assunto, peço que considerem o seguinte.

A aviação é uma das atividades humanas mais controladas que existem no mundo todo. Tudo que se relacione à aviação é controlado. Equipamentos, infraestrutura e pessoal estão sujeitos a leis, normas, requisitos e outros dispositivos que visam garantir a segurança no transporte aéreo. Estes dispositivos legais são elaborados e aplicados por vários órgãos nacionais e internacionais. A aviação civil é regulada pela ICAO (International Civil Aviation Organisation - Organização de Aviação Civil Internacional), da qual a maioria dos países do mundo faz parte. No Brasil, a aviação civil é controlada pelo DAC (Departamento de Aviação Civil) e DECEA (Departamento de Controle do Espaço Aéreo), que seguem as recomendações da ICAO.

Quando as condições meteorológicas são adversas, o piloto se orienta por instrumentos na cabine e por auxílio à navegação em solo, os rádio-auxílios (mais recentemente também por satélites de posicionamento global). Na hora do pouso, o piloto deve efetuar um procedimento de aproximação por instrumentos, que nada mais é do que uma série de manobras pré-estabelecidas e que visam colocar o piloto o mais baixo possível e alinhado com a pista para que o mesmo tenha condições de estabelecer contato visual com a pista e efetuar o pouso. Caso o piloto não consiga estabelecer contato visual com a pista, o mesmo deve efetuar o procedimento de arremetida. A ICAO, em seu Anexo 14, Documento 8168 Procedures for Air Navigation Services - Aircraft Operations PANS-OPS (Procedimentos para Serviços de Navegação Aérea - operações de aeronaves) estabelece os critérios para construção dos procedimentos de aproximação por instrumentos. Lá estão definidas as áreas de proteção, altitudes mínimas e tolerâncias laterais para operação segura da aeronave, e estes valores variam de acordo com a performance da aeronave e o tipo de rádio-auxílio utilizado para o procedimento entre outras coisas. Para cada segmento de um procedimento de aproximação, a ICAO define uma área de proteção, que é a altura mínima da aeronave em relação a um obstáculo com uma margem de erro lateral (desvio em relação à rota prevista).

No caso de Bauru, o rádio-auxílio existente é um NDB (non-directional beacon), um dos mais básicos e portanto menos precisos. Neste caso, a área de proteção tem uma largura de 4,6km sobre o rádio-auxílio e vai alargando quando nos distanciamos do auxílio, abrindo com um ângulo de 10,3º. Assim, na cabeceira da pista em Bauru, a área de proteção tem uma largura de aproximadamente 6,6km (3,3km para cada lado do eixo da pista). A altura mínima no segmento de aproximação final, que é o segmento que vai do rádio-auxílio até o ponto onde se inicia a arremetida, não será inferior a 90 (noventa) metros sobre o obstáculo mais alto da área de proteção. Em Bauru, a altura mínima até onde o piloto pode descer sem contato visual com o solo é de 140 (cento e quarenta) metros em relação à cabeceira da pista. No procedimento de aproximação perdida (arremetida) a altura mínima sobre um obstáculo cai para até 30 (trinta) metros nos segmentos iniciais. Tais valores de altura, embora pequenos, são adotados no mundo todo, e principalmente são seguros!

Pelo exposto acima, vemos que uma aeronave mesmo voando sobre o Jd. América a baixa altura está cumprindo os regulamentos e, portanto, efetuando uma operação que não coloca em risco a segurança de moradores e usuários do transporte aéreo. O susto se deve ao fato de que a aeronave, ao efetuar a arremetida, o faz utilizando toda a potência dos motores, causando um barulho mais forte que o normal, já que na aproximação para pouso a potência está bastante reduzida. Por enquanto, os moradores do Jd. América e também da Vl. Universitária continuam sujeitos a esse tipo de “susto” toda vez que as condições meteorológicas estiverem desfavoráveis. Porém, não existe nenhum risco, e a segurança continua garantida. A boa notícia é que com o desenvolvimento de novas tecnologias, como o sistema de posicionamento via satélite (GPS), em breve será possível realizar procedimentos de pouso por instrumentos com precisão muito maior. Ao invés de uma faixa de 3km de largura exigida pelo NDB, o GPS é capaz de trazer uma aeronave até próximo da pista com uma precisão de poucos metros e uma altura de apenas 60 metros sobre o solo. Neste caso, as chances de uma arremetida ser efetuada diminuem, e se assim mesmo ela ocorrer, será bem mais próxima da pista, trazendo mais sossego aos moradores da região do aeroporto. E visando capacitar os pilotos da região para operar com essa nova tecnologia, nos dias 26 e 27 de julho a equipe de pilotos que implantou a operação de aproximação por GPS na Varig e Rio-Sul estará em Bauru ministrando um curso sobre a utilização deste tipo de procedimento. Grato pela atenção. (Luiz Carlos Cortez Cesar - RG. 15.248.728)

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