A semana que passou foi a mais reveladora da campanha eleitoral até o momento. Não tanto porque as posições na corrida se modificaram, mas por dois outros fatores. De um lado, mexeu com a posição pretendida pelo presidente Fernando Henrique, de aguardar o horário eleitoral gratuito para se revelar como um eleitor de grande peso. De outro lado, Ciro Gomes, que ganhou pontos em todos os segmentos, também vai ser levado a escapar da ambigüidade para se definir como uma alternativa a Luiz Inácio Lula da Silva ou a José Serra.
As pesquisas da semana mostraram com clareza que, quando o governo perde, nem sempre quem ganha é o principal candidato da oposição. E o candidato da situação, ainda que não perca muitos pontos na corrida, debilita sensivelmente sua armação.
Na visão dos eleitores, a personalidade política de Fernando Henrique e o desempenho de seu governo são campos relacionados, mas não totalmente superpostos. O Ibope desta semana, por exemplo, indica que 22% dos eleitores avaliam bem a administração de FHC. Mas a aprovação à forma como ele administra é de 39%. E a confiança em FHC (medida pelo Ibope em junho, mas não em julho) também é de 39%. Não é pouco.
A avaliação da administração tem a ver sobretudo com desempenho nas áreas críticas, como desemprego e segurança, enquanto que a aprovação do desempenho pessoal e confiança tem a ver com a maneira como ele conduz suas relações com a sociedade. Apesar do campo de aprovação do governo, Serra ainda não se apropriou de forma mais consistente desse terreno positivo e nem seus adversários, com seus discursos oposicionistas, convenceram seus eleitores potenciais a apedrejar totalmente o presidente. Esses espaços nunca serão perfeitamente preenchidos, mas os números mostram um certo grau de reajuste que deverá acontecer com o desenvolvimento da campanha e com um novo papel para o presidente-eleitor. Segundo o Ibope publicado na última semana, 43% dos eleitores de Ciro, 32% dentre os de Garotinho e 28% entre os de Lula aprovam a maneira como o presidente vem administrando o País.
O candidato tucano tentou encaixar-se em um nicho de continuidade sem continuísmo, uma espécie de terra de ninguém entre dois fogos. Dentro dessa estratégia, Serra fez nas últimas semanas ataques ao governo ou deu-lhe nota de aprovação modesta, procurando uma distância para sair de sua sombra. Distância que o eleitor ou não enxerga ou julga menor do que o cálculo do candidato. Afinal, ele foi figura de relevo da equipe de FHC.
Sair da sombra do governo, goze Serra ou não de popularidade, não é uma operação simples para alguém que até ontem era ministro – ainda que a manobra seja necessária para configurar a identidade do candidato e às margens de esperança para o seu futuro governo. Agora, fazê-lo de uma forma a emitir sinais ambivalentes, como vem acontecendo, pode ser desastroso.
Aos que esperam, neste estágio, algum tipo de consolidação na intenção de voto dos eleitores, o Ibope ofereceu um menu completo de indicadores em contrário: 64% dos eleitores de Serra, 63% dos de Ciro, 50% dos de Garotinho e 47% dos de Lula dizem que podem mudar seu voto até o dia das eleições. Até lá, portanto, tem muita coisa para acontecer. (A autora, Fátima Pacheco Jordão, é consultora de pesquisas eleitorais do Grupo Estado)