Nos anos 30, época em que os automóveis reinavam soberanos nas ruas do País, ser proprietário de uma motocicleta era sinal de status. Três décadas mais tarde, as motos americanas e européias já podiam ser vistas com freqüência circulando pelas vias brasileiras.
Já no final dos anos 60 uma verdadeira “invasão†japonesa tomou conta da preferência popular e contribuiu para o surgimento no mercado de marcas como Honda, Yamaha e Kawasaki. Durante esse período, mais do que as evoluções mecânicas, o comportamento dos motociclistas também passou por transformações.
Era o auge do galã de cinema James Dean, protagonista de aventuras perigosas e violentas no filme “Selvagens da Motocicletaâ€. O ator retratava o rebelde sem causa, perfil que muitos admiradores, a maioria jovens, das máquinas de duas rodas quiseram imitá-lo e, até mesmo, reverenciá-lo.
Entretanto, tal comportamento também contribuiu para que a imagem dos motociclistas fosse “arranhadaâ€. Naquele tempo, ter uma moto era sinônimo de ser pessoa de má índole e causadora de confusão, ou seja, um típico “motoqueiroâ€. O preconceito era tão intenso que até namoros eram desfeitos. Quem ousasse aparecer com algum namorado(a) em casa era imediatamente “encostado†na parede pelos pais e forçado a romper o relacionamento.
E hoje, será que o dono de uma motocicleta ainda é associado ao “motoqueiro†ou o perfil é outro?. Nesse caso, a segunda hipótese parece demonstrar a realidade com mais exatidão. Muitos consideram ofensa grave ser chamado de “motoqueiroâ€, para eles o mesmo que baderneiro, e é fácil encontrar condutores situados na faixa dos 30 aos 60 anos.
É o caso do empresário bauruense João Colnaghi, dono de uma belíssima Honda Walkirie 1500. Chamá-lo de “motoqueiro†é a senha para ter o assunto encerrado na hora. “Procuro nem estender a conversa, pois entendo que a pessoa estará me discriminando e incluindo em uma casta negativaâ€, enfatiza ele.
Admirador de motos desde a juventude, Colnaghi conta que, durante a década de 70, os motociclistas eram vítimas dos mais variados preconceitos. “Em alguns locais éramos impedidos de entrar e, em 1972, um posto de combustíveis recusou-se até a abastecer minha motoâ€, lembra ele.
Divisor de águas
Hoje, segundo o empresário, a realidade alterou-se radicalmente e o preconceito diminuiu, mas ainda existe principalmente com as motocicletas de menor porte. A razão, conforme Colnaghi, é óbvia. “Como há uma quantidade maior de motos de cilindradas mais baixas circulando, é evidente que a maioria das ocorrências negativas, como acidentes, ocorrem com elas. Assim, o preconceito acaba crescendo.â€
Por isso, Colnaghi considera que o “divisor de águas†para o preconceito acaba sendo a potência da motocicleta. Entretanto, o empresário enfatiza que o comportamento do motociclista é que irá separar o “joio do trigoâ€, independente do tamanho e cilindrada da moto. “A maneira como eles agem no trânsito é a forma de identificá-los. Aqueles que são agressivos não sabem curtir uma motocicletaâ€, ressalta ele.
Colnaghi destaca, ainda, que ser um verdadeiro motociclista dependerá da cabeça do próprio condutor. “O comportamento em duas rodas envolve aspectos culturais, mas o motociclista é aquele que é consciente e que não transforma sua moto em uma armaâ€, frisa o empresário.
Carapuça
A entregadora bauruense Sandra Aparecida Bevilacqua, na função há cerca de um ano, afirma ser indiferente à distinção entre motociclista ou motoqueiro. “Não ligo que me chamem de motoqueira, pois para mim a carapuça não serveâ€, ressalta ela. “Motociclista é aquele que tem bom comportamento no trânsito, respeita a sinalização e não anda como um louco por aíâ€, acrescenta.
A exemplo de Colnaghi, Sandra também considera que o preconceito contra os condutores de motos diminuiu. Ela atribuiu tal mudança aos fatos das motocicletas transformarem-se em ferramentas de trabalho e ser utilizadas por pessoas de diversas camadas sociais. “Os bagunceiros ainda existem, mas atualmente as motos são usadas, seja por homens ou mulheres, para as mais variadas atividades profissionaisâ€, conclui ela.