Auto Mercado

Questão de identidade

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 3 min

Nos anos 30, época em que os automóveis reinavam soberanos nas ruas do País, ser proprietário de uma motocicleta era sinal de status. Três décadas mais tarde, as motos americanas e européias já podiam ser vistas com freqüência circulando pelas vias brasileiras.

Já no final dos anos 60 uma verdadeira “invasão” japonesa tomou conta da preferência popular e contribuiu para o surgimento no mercado de marcas como Honda, Yamaha e Kawasaki. Durante esse período, mais do que as evoluções mecânicas, o comportamento dos motociclistas também passou por transformações.

Era o auge do galã de cinema James Dean, protagonista de aventuras perigosas e violentas no filme “Selvagens da Motocicleta”. O ator retratava o rebelde sem causa, perfil que muitos admiradores, a maioria jovens, das máquinas de duas rodas quiseram imitá-lo e, até mesmo, reverenciá-lo.

Entretanto, tal comportamento também contribuiu para que a imagem dos motociclistas fosse “arranhada”. Naquele tempo, ter uma moto era sinônimo de ser pessoa de má índole e causadora de confusão, ou seja, um típico “motoqueiro”. O preconceito era tão intenso que até namoros eram desfeitos. Quem ousasse aparecer com algum namorado(a) em casa era imediatamente “encostado” na parede pelos pais e forçado a romper o relacionamento.

E hoje, será que o dono de uma motocicleta ainda é associado ao “motoqueiro” ou o perfil é outro?. Nesse caso, a segunda hipótese parece demonstrar a realidade com mais exatidão. Muitos consideram ofensa grave ser chamado de “motoqueiro”, para eles o mesmo que baderneiro, e é fácil encontrar condutores situados na faixa dos 30 aos 60 anos.

É o caso do empresário bauruense João Colnaghi, dono de uma belíssima Honda Walkirie 1500. Chamá-lo de “motoqueiro” é a senha para ter o assunto encerrado na hora. “Procuro nem estender a conversa, pois entendo que a pessoa estará me discriminando e incluindo em uma casta negativa”, enfatiza ele.

Admirador de motos desde a juventude, Colnaghi conta que, durante a década de 70, os motociclistas eram vítimas dos mais variados preconceitos. “Em alguns locais éramos impedidos de entrar e, em 1972, um posto de combustíveis recusou-se até a abastecer minha moto”, lembra ele.

Divisor de águas

Hoje, segundo o empresário, a realidade alterou-se radicalmente e o preconceito diminuiu, mas ainda existe principalmente com as motocicletas de menor porte. A razão, conforme Colnaghi, é óbvia. “Como há uma quantidade maior de motos de cilindradas mais baixas circulando, é evidente que a maioria das ocorrências negativas, como acidentes, ocorrem com elas. Assim, o preconceito acaba crescendo.”

Por isso, Colnaghi considera que o “divisor de águas” para o preconceito acaba sendo a potência da motocicleta. Entretanto, o empresário enfatiza que o comportamento do motociclista é que irá separar o “joio do trigo”, independente do tamanho e cilindrada da moto. “A maneira como eles agem no trânsito é a forma de identificá-los. Aqueles que são agressivos não sabem curtir uma motocicleta”, ressalta ele.

Colnaghi destaca, ainda, que ser um verdadeiro motociclista dependerá da cabeça do próprio condutor. “O comportamento em duas rodas envolve aspectos culturais, mas o motociclista é aquele que é consciente e que não transforma sua moto em uma arma”, frisa o empresário.

Carapuça

A entregadora bauruense Sandra Aparecida Bevilacqua, na função há cerca de um ano, afirma ser indiferente à distinção entre motociclista ou motoqueiro. “Não ligo que me chamem de motoqueira, pois para mim a carapuça não serve”, ressalta ela. “Motociclista é aquele que tem bom comportamento no trânsito, respeita a sinalização e não anda como um louco por aí”, acrescenta.

A exemplo de Colnaghi, Sandra também considera que o preconceito contra os condutores de motos diminuiu. Ela atribuiu tal mudança aos fatos das motocicletas transformarem-se em ferramentas de trabalho e ser utilizadas por pessoas de diversas camadas sociais. “Os bagunceiros ainda existem, mas atualmente as motos são usadas, seja por homens ou mulheres, para as mais variadas atividades profissionais”, conclui ela.

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