Tribuna do Leitor

A visita dos velhos senhores


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A novela não vai lá das pernas, o autor se distraiu recortando figurinhas de outros roteiros e, na colagem, não chegou a criar um album novo. A TV fica ligada apenas porque aquela é a horinha de todo dia, mas ninguém se impressiona. A maioria dos atores e atrizes está recitando suas falas com inflexão de teatro de colégio, ninguém convence ninguém e a trama é paupérrima. De repente, porém, um relâmpago cintilante invade a telinha e a cena vira um espetáculo de altíssima qualidade que a gente tem ímpeto de aplaudir de pé: é quando visitam a novela os velhos senhores, o que inclue as senhoras, os incomparáveis mestres de nosso universo teatral. É um Antônio Fagundes, perfeito como tirano fascista. É uma Fernanda Montenegro, magistralmente desgrenhada e trôpega. É um Raul Cortez dedilhando um piano lamentoso para esconder a saudade do filho “imbecile”que tanto ama. É uma Eva Vilma com lágrimas de felicidade na voz porque recebeu carta do Brasil. É um Paulo Goulart, que com sua cabeleira grisalha e do alto de seus 100 e tantos quilos, filtra safadeza bem humorada e muita sensualidade por entre as pálpebras. Em um mero papel secundário e aparecendo em poucas cenas, eles roubam a novela toda e fazem a gente acordar da indiferença. De repente, todo o elenco desaparece, sombras auxiliares que se movimentam como em um pano de fundo. Os velhos senhores e aquelas lindas senhoras fazem o que querem da voz, do olhar, de cada músculo da face ou do corpo, ensinando até mesmo aos mais desavisados que aquilo sim, é arte, é talento, é trabalho. Nenhum deles se deixou abalar pela mudança do rosto liso ou do corpo esguio da juventude. Em plena terceira idade de ouro, mostram a cada cena que qualidade é intemporal, como o gosto pelo bom vinho e o brilho das pedras preciosas. (Vânia Figueiredo - cadeira n.º 24 - Academia Bauruense de Letras)

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