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Porque hoje é domingo


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O bebê brasileiro já nasce devendo R$ 5.882,00. Essa é a quantia que cada um dos 170 milhões de habitantes deste País teria que desembolsar se todos aceitassem contribuir para o pagamento da dívida pública. Metade dos nossos trabalhadores não recebem essa grana toda por ano.

O endividamento líquido do setor público, o mais importante indicador da saúde econômica de um país, atingiu o recorde de R$750 bilhões em junho. A dívida bruta ultrapassa R$1 trilhão, o equivalente a 78,2% de toda a produção nacional em um ano. O impressionante é a velocidade de crescimento dessa dívida. Apenas no mês de junho o endividamento aumentou R$41,8 bilhões. Metade da dívida brasileira é corrigida em dólares. Como na quinta-feira a moeda norte-americana rompeu a barreira dos R$3, a dívida pública teve incremento de R$6 bilhões. Em um dia!

O problema desses números enlouquecidos, como reconheceu o presidente do BC Armínio Fraga, é que não se vislumbra uma melhora no quadro econômico no curto prazo. Até três semanas atrás, Lula era o culpado pelos transtornos no mercado e as pressões sobre a cotação do dólar. Agora a sucessão presidencial passou a ser um problema secundário. O tormento vem dos escândalos nos Estados Unidos e na Europa em razão de fraudes em balanço de empresas. A coisa está tão feia que o dólar comercial chegou a valer mais que no paralelo.

O desaquecimento da economia e a falta de poder aquisitivo do trabalhador inibiu até agora o vendaval inflacionário. Mas a taxa de câmbio tem forte impacto sobre os preços e a carestia será inevitável. A engrenagem anda para trás: sem emprego não há consumo, sem consumo não há produção e sem produção diminui ainda mais o nível de emprego. O governo tenta acalmar o mercado com um novo acordo com o FMI. A mulher do Fundo Monetário que esteve no Brasil, Anne Krüeger (a cara da Erundina), certamente impôs mais cortes nos gastos do governo e aumento da carga tributária para melhorar a arrecadação. Deu um pito no Copom por baixar os juros. Isso significa mais recessão. O problema é que ninguém sabe onde o FMI vai arrumar dinheiro para socorrer o Brasil. São necessários US$50 bilhões por ano. Para tentar subir o balão murcho da candidatura Serra, totalmente sem gás, o presidente FHC mandou diminuir o preço do butijão. Ridículo.

A pergunta dos simples mortais neste momento trágico é clássica: o que que eu faço com o meu dinheiro juntado com tanto sacrifício após anos e anos de trabalho e privações? Entrar em fundo cambial não adianta. Os títulos também são do governo que, se quebrar, não vai honrá-los em dólar. Aconteceu na Argentina. Quem compra a moeda americana corre riscos com as falsificações e roubo. Além do mais, está se desvalorizando diante do euro e do iene e há inflação também nos Estados Unidos. Os fundos de renda fixa viraram uma esbórnia. Os rendimentos da poupança estão abaixo da inflação. As ações se volatilizaram no mundo inteiro. Imóveis não têm liquidez. Como dizia o saudoso Sampainho ainda na crise do cruzado, “um dia zero vai comer zero e estamos conversados”. Cria-se uma moeda nova e o povo fica com o mico.

Só vejo uma solução para quem tem algum: gaste-o. Vá curtir as praias do Nordeste, compre um carro novo, autorize as crianças a presenteá-lo no Dia dos Pais, aproveite o inverno para comprar queijo e tomar vinho importado enquanto o preço está bom, e relaxe. Conforte-se como aquele passageiro em meio à turbulência: “ainda bem que o avião não é meu”. O País pode ir para o ralo. Você, não. Além do mais, hoje é domingo. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)

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